Mostrando postagens com marcador Devaneios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Devaneios. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Crianças desaparecidas

Na segunda feira muitas crianças receberam presentes e abraços. Houve sorrisos, papel brilhante, cartões alegres. Muitas, não todas. Algumas crianças não: as crianças desaparecidas.
Essas crianças se contentaram com um sorriso indulgente, e talvez assistiram escondidas a algum desenho animado ou cantaram músicas da Xuxa no banho. Elas já sumiram há um bom tempo. A maioria dos pais já se desiludiu e parou de procurá-las e a quase unanimidade deles sente saudades.
Muitas delas sentem falta de casa, e algumas chegam a lembrar dos bons tempos passados com uma boa dose de lágrimas. Essas crianças trabalham ou estudam ou fazem as duas coisas. Talvez quem mais as procure sejam elas próprias. Muitas vezes elas só querem um colo quentinho ou um bolo de chocolate assando no forno.
As crianças desaparecidas somos nós.
As crianças que fomos não morreram: elas sumiram. Elas existem. Estão em algum lugar, brincando de Barbie ou jogando bolinha de gude.
Procura-se.
Procura-te.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Soprando velinhas


É com orgulho e vergonha que eu venho anunciar o aniversário do Banquinho! Orgulho porque quando eu criei este blog eu nunca imaginei que ele duraria tanto, e também porque me sinto muito realizada escrevendo aqui e principalmente vendo que algumas pessoas parecem realmente gostar dos meus posts e vêm sempre sentar para me escutar. Já a vergonha é porque na verdade o blog fez um ano há mais ou menos uma semana, e eu vergonhosamente me esqueci da data. Mas isso pode ser superado (eu acho).

Então eu decidi fazer um post especial, no qual eu pretendo fazer o que sempre faço aqui: abrir meu coraçãozinho para vocês, queridos leitores. Só que desta vez não é sobre política, nem vestibular, nem literatura, nem filosofia, nem música: é sobre mim e o blog mesmo. E, naturalmente, sobre vocês também.

Há um ano e uma semana, uma menina do segundo ano do ensino médio resolveu criar um blog para ter uma desculpa para escrever tudo o que pensava. Não, não vou contar a história em terceira pessoa porque isso é ridículo. É que a gente muda e não sei o quanto eu ainda sou a mesma. Relendo os posts do ano passado eu vi o quanto passei a escrever diferente -e, por extensão, pensar diferente- neste tempo. O Banquinho veio crescendo junto comigo.

Vou aproveitar a ocasião e explicar por que diabos o blog tem este nome. Tudo começou numa feira de cultura do meu colégio quando eu estava na oitava série. Cada aluno ou grupo de alunos faz um trabalho e apresenta, e o meu trabalho foi... um banquinho. Todo mundo chegando com suas cartolinas, maquetes, experiências e tudo o mais e eu carregando um banquinho. Pequenininho, desses de apoiar os pés. Tinha uma mesa com vários livros de poesia e do lado dela eu coloquei o banquinho e esperei. As pessoas foram chegando e eu pedia para elas subirem no banquinho e declamarem um poema, ainda que fossem apenas alguns versos. E foi um sucesso maior do que eu esperava! As pessoas olhavam, desconfiadas, se faziam de rogadas e depois subiam e liam e falavam. Depois desse trabalho, quando eu saía na rua as pessoas diziam "olha lá a menina do banquinho!" e fiquei sendo isso aí mesmo.

Manter um blog é um desafio. No post "humildade" aí embaixo eu tentei explicar que escrever não é mole. Só que é extremamente gratificante. Eu me lembro do primeiro comentário, que foi de uma pessoa que eu nem conhecia! E depois outros comentários, de outros desconhecidos, tudo tão emocionante! Só bem, bem depois foi que os meus amigos foram descobrir o blog, e pouquíssimos chegaram a comentar aqui (as colegas Dora, que virou blogueira também, e Isabela). E os desconhecidos viraram amigos, tanto os que também eram blogueiros, como o Sanger, o Fábio, a Antônia, o Orochi, a Marina, o Márcio e vários outros, quanto os não blogueiros, como a Ana (a primeira comentarista), o Rafael mais alguns.

Comecei com o blog sozinha, pensando "o que vier é lucro". E o lucro foi grande. Hoje o Banquinho tem 14 seguidores (!!!), fiz bons amigos e ainda ganhei, se não a admiração, pelo menos o respeito, de várias pessoas. Nem sei se realmente mereci isso tudo, mas se hoje estou postando neste blog há 1 ano, é pelo menos 90% graças a vocês, que são os melhores, mais educados e mais cultos leitores da blogosfera (e eu acho isso de verdade!). 10% são meus, porque o blog não se atualiza sozinho, né?

Vocês fizeram o Banquinho crescer e fizeram de mim uma vestibulanda menos neurótica, e digo até uma pessoa melhor.

Vocês são o máximo! Muito obrigada!

domingo, 20 de setembro de 2009

Augusto e eu

Quando eu conheci Augusto (e isso tem uns 4 anos), eu, de cara, já não simpatizei com ele. Hipocondríaco, bebia muito, fumava mais ainda e falava o tempo todo de morte, de vermes, desgraças em geral. Lembro-me de dizer a muitas pessoas "que cara negativista, não gosto dele, não" e até de desviar os olhos se por acaso o visse. Juro que se ele não fosse tão velho, eu diria que ele tinha umas tendências a emo.

O tempo passou e eu parei de desviar os olhos e passei a ouvir o que ele tinha a dizer. Do quanto a vida é curta, a dor é grande e os amores são cruéis. E inicialmente eu discordei de tudo. Depois, só bem depois, foi que eu vi que não precisava concordar ou não com ele: era simplesmente uma questão de reconhecer que aquela era a verdade dele e respeitá-la.

Foi aí que eu vi que Augusto mexia comigo mais do que qualquer outro. Depois das palavras dele, eu pensava por muitas horas, e várias vezes chorei. E vi o quanto a verdade dele podia ser tão verdadeira às vezes.

Alguns dizem até gostar de Augusto, mas que ele é boa companhia somente nas horas de tristeza ou desespero. Eu já acho justamente o contrário: só se deve procurá-lo nos dias de sol, quando se está absolutamente bem resolvido com a vida e os amores. Primeiro porque, apesar de compreensivo, ele não é muito consolador e apresenta algumas ideias suicidas. Segundo porque ele sempre oferece bebida e cigarros nessas ocasiões, e eu não aprecio nenhuma das duas coisas.

Então, caro leitor, no seu dia de sol quando for encontrar Augusto, é muito provável que ele diga todas as coisas de sempre. E quando ele disser que a felicidade não existe você vai sorrir, apontando para si e dizendo "existe sim, olhe aqui" e ele vai balançar a cabeça descrente e acender um cigarro. Você vai voltar para sua vida e seus amores muito mais ciente da real existência deles e vai pensar "Augusto, seu tolinho, você não sabe o que está perdendo".
Não, ele não sabe. Mas graças a ele você sabe o que está ganhando.

Augusto.
Dos Anjos.
Poeta naturalista.
Nascido em 1884.


Para quem não teve a honra de conhecê-lo ainda: http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp
http://www.jornaldepoesia.jor.br/augusto03.html

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Blog Day 2009


Ladies and gentleman, this is blog day 2009!! Este dia é dedicado para blogueiros all over the world conhecerem e divulgarem blogs alheios, para uma maior interação na blogosfera.
As regras são as seguintes: cada um deve indicar em seu blog cinco blogs alheios, de preferência que tratem de assuntos e culturas diferentes da sua.
Vou postar aqui então alguns blogs que visito sempre e que acho excelentes, cada um dentro da sua área específica.

Começarei com um blog projeto: o Livro sem Fronteiras, escrito pelo Fernando Monção, que tem o plano de transformar Valença na Cidade da Leitura. Não preciso nem dizer que apóio completamente.

O próximo contemplado é sobre entretenimento em geral temperado com muita cultura otaku: o Chamando o Coringa, do Marcus Orochi.

Apesar de ser muito suspeita para indicar este blog, faço-o mesmo assim e recomendo o Lamento de um Blue, da colega Dora, que fala de forma muito profunda de boa música, literatura e pensamentos em geral.

Consta também o D. Quixote em Valença, blog do Sanger, que apesar da tendência política oposta à minha discorre brilhantemente sobre os acontecimentos populares de Valença, do Brasil e também dos particulares.

Agora cito o Comuna Virabossa, que tem textos inteligentes e muito bem escritos sobre música e História, além da "cultura e contracultura" mantido pelos irmãos Virabossa.
Estão aí, todos devidamente aprovados pela moça do Banquinho, prontos para serem lidos pelos senhores. Façam bom proveito!

sábado, 22 de agosto de 2009

"Pega a faca e mata!"

Outro dia me deparei com o álbum mais ferrenhamente vegetariano que já vi. 95 fotos de pura militância anticarnívora. Quando cheguei à 40ª foto, já estava considerando a hipótese de me tornar herbívora até que ouvi o chamado de "quem quer hambúrguer!?" e fim da história.

Neste meu curto tempo de vida até agora já ouvi absurdos como "eu não como carne, só como picanha" e "eu sou vegetariana, mas como nuggets". Claro que isso dá o que pensar. As pessoas não comem carne por diversos motivos, algumas por gosto, outras pelo peso e muitas por filosofia de vida. Gosto e peso são problemas muito pessoais, então vamos à filosofia.

É comum ouvir grandes dissertações sobre as emissões de metano causadas pelas criações de gado mundo afora. Acontece que os aterros sanitários, onde é depositada a maior parte do lixo orgânico mundial, emitem muito mais metano. E o lixo orgânico, além de restos de carne, inclui também saudáveis e puros restos e cascas de vegetais e frutas. Ainda sobre o monstruoso aquecimento global, é importante dizer que os adorados computadores em que os respeitáveis vegetarianos divulgam suas idéias verdes são produzidos em sua maioria por empresas de capital norte-americano, sendo que os EUA nem assinaram o protocolo de Kyoto.

Outro argumento muito comum é a crueldade com os animais, e é aí que eu chego ao verdadeiro assunto do texto: a crueldade. A crueldade está cada vez mais cruel. Se hoje eu digo que não dispenso um bom churrasco, que o queijo não é a mesma coisa sem o presunto e que não tem palmito que substitua um molho à bolonhesa tem gente pronta para me chamar de assassina. Porém, muitos fecham os olhos para as crueldades cometidas nas touradas, nos rodeios, nos circos, nas rinhas de galo e nos reality shows que divertem todo o mundo.

Reality shows? É, eles mesmo. Afinal, o que poderia render mais Ibope que tortura humana, seja ela física ou psicológica? Que tipo de humanidade senta no sofá para assistir pessoas comendo olhos de cabra, embriões de pintinhos, peixes vivos e outros "alimentos"? Todos prontos para passar por cima dos seus escrúpulos, dos seus valores e dos seus limites para ganhar altas somas de dinheiro. E os filmes? As tropas de elite da vida? Tortura esgota bilheterias.
Crueldade.
E antes que venham com grandes discursos dizendo que a culpa é do capitalismo, que ele torna as pessoas selvagens, estejam os senhores leitores devidamente lembrados que as execuções públicas já eram atração há mais de 2 mil anos e que os combates entre cavaleiros divertiam a sociedade feudal.
A crueldade parece quase inerente. Se a humanidade não evoluiu a ponto de se tornar boa consigo própria, imagine tornar-se piedosa para com os animais. Antes defender a própria espécie! Se bem que, com essa crueldade toda, nem sei porque me dou ao trabalho.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Baú de Espantos e o PC

Se cada um de vós, ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão -
se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
faria uma verdadeira viagem...
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.
.
Invitatión au voyage, Mário Quintana em Baú de Espantos.
.
.
Quando Baú de Espantos foi publicado, em 1986, Quintana, os poetas e o mundo estavam preocupadíssimos com o quanto as pessoas renunciavam à "vida lá fora" em nome da televisão.
Pobre Quintana, pobres poetas, pobre mundo! Eles não esperavam pelo personal computer! Ou pelo menos não pelo sucesso que este faria. Nossos amados computadores agora são muito mais do que tvs: são também tvs e são livros e são rádios e são vitrolas, telefones, máquinas fotográficas, amigos e amores.
Bom ou ruim? Outros já falaram sobre isso mais e melhor que eu, então não vou perder meu tempo e o leitor também provavelmente já tem sua opinião formada.
Na verdade, me alongo à toa. Este poema é a minha desculpa. Tenho ficado muito tempo sem postar e fico me sentindo culpada. Mas é por nobre causa! É pela nobreza de um livro de poemas, de uma composição do Villa-Lobos e da companhia dos amigos.
Ó, leitor! Vá abrir um livro de poemas! Me sinto honrada com a sua companhia, mas não deixe seus poetas, seus músicos, seus amigos e amores para ficar no computador! Vá para eles! E quando estiver cansado ou tiver vontade, volte. Nos veremos de novo, ambos ainda mais repletos de poesia, de música, de amizade e amor.
Boa viagem.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Falsos pudores

Pudor: sm 1 Sentimento de pejo ou vergonha, produzido por atos ou coisas que firam a decência, a honestidade ou a modéstia.
3 Pundonor, recato, seriedade.


Nesses programas "reality show", entre outros assuntos altamente filosóficos, fala-se muito em combater os falsos pudores. Por falso pudor o senso comum entende "uma atitude que você tomaria em casa ou entre seus amigos mais próximos e que não externa no meio da sociedade por vergonha". Há até quem diga que o falso pudor é um tipo de falta de caráter. E o pudor verdadeiro? Alguém sabe diferenciar um do outro? Nessa de "tirar as máscaras" as pessoas não abrem mão só do falso pudor: existe gente (e não é pouca!) sem pudor algum.

Levanto outra questão: e o pudor inverso? Gente que é por demais séria ou recatada em casa, entre os amigos, mas quando chega na sociedade tem que aprender a se soltar para não ser acusada de conservadorista ou falsa moralista. Eu já passei muitas vergonhas por ter vergonha. Já tive que me desculpar por não gostar de palavrão, já tive que justificar outras tantas vezes porque não gosto da dança do créu e até por causa de um post aqui no blog já tive que ouvir que gostosa é elogio sim!

Então é o fim dos "filtros"? Quer dizer então que é muito mais verdadeiro portar-se da mesma forma em todos os lugares, sem o mínimo de preocupação com a linguagem, com os gestos e até com as roupas? E olhe que pudor não é só a vergonha produzida pela moralidade e pelos costumes. Como a própria definição da palavra diz, pudor é também ter vergonha de atos que firam a honestidade.

Antes falso pudor que pudor nenhum. E digo mais: o "falso pudor" não é nem falso, pois nada mais é do que ter vergonha de ter certas atitudes em público. O verdadeiro falso pudor é fingir que se tem vergonha de algo que não tem.

O que falta neste mundo, neste país, nesta sociedade é uma boa dose de pudor. Vergonha na cara, se quiserem uma expressão mais direta. E isso para qualquer ocasião: seja para saber que nem todo mundo que vai à praia quer se deparar com um topless, que grande quantidade de mulheres não gosta de ser despida com os olhos, que nem todo mundo acha graça em piadas sujas, ou mesmo para não saber onde enfiar a cara quando se é pego fazendo algo que contrarie "a decência, a honestidade ou a modéstia".
Bom senso não basta. Tem que ter muito pudor.
Verdadeiro.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Catarse ha-ha-ha

Ridendo castigat mores

Existem vários tipos de humor. Humor barato, negro, inteligente, sujo e até o chamado "humor engraçado" como inventaram ultimamente. O humor é muito amplo, é necessário especificá-lo: este texto é sobre humor barato político brasileiro. O leitor naturalmente está pensando que humor político se classificaria melhor em "inteligente" que em "barato", mas é bom não confundir: é humor barato versão política. Brasileiro, pois não tenho vivência no exterior para saber como é por lá.

O provérbio latino na epígrafe quer dizer "rindo corrigem-se os costumes". Na comédia do teatro clássico, existia este processo de fazer rir para corrigir o senso comum. O humor era uma ferramenta política. Por meio dele, o cidadão enxergava defeitos e falhas da sociedade para depois corrigi-los. O que se vê hoje na maioria das charges, das publicações humorísticas e dos programas televisivos (maioria não é totalidade!) é a completa falência do sistema de rir para castigar.

Agora, o que se faz é rir para acomodar. O provérbio que melhor expressa é "só rindo para não chorar". É muito mais fácil banalizar (ou baratear) para consolar. Um povo anestesiado com humor barato se torna menos crítico. Dinheiro na cueca? Castelo escondido? Farra de passagens? HA-HA-HA. Seria hilário se não fosse trágico. E isso tudo é explorado que é uma beleza. E o povo ri. Ri sem castigar costume nenhum. Ri para não chorar. Ri sem protestar, sem questionar, sem mudar de atitude. Ri porque não tem jeito nem jeitinho que resolva.

E o mais triste (ou seria mais cômico?) é que os próprios políticos passaram a levar na brincadeira. Riem junto com o povo, da cara do povo, na cara do povo.
Ficou tudo tão engraçado que tem gente se esquecendo até de ficar sem graça.
Quer saber? Não tem graça nenhuma.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Posse

Decorar poemas é como catar conchinhas: as pessoas tentam de todas as formas se apossar de uma beleza sublime que não é sua nem pode vir de si, só para poder admirá-la quando lhes apraz e mostrá-la a quem possa interessar com ar de dono.




Obs.: O Banquinho está no jornal! O artigo sobre o novo ENEM está na edição 37 do Valença em Questão, que saiu na quinta feira. A edição está especialmente voltada para a Educação, e está disponível para baixar no blog do VQ (http://blogdovq.blogspot.com/).

terça-feira, 2 de junho de 2009

"Tá querendo"

Não entendo por que é que na nossa sociedade a mulher está sempre "querendo". Se um homem sai em camisa, está com calor. Se uma mulher sai de decote ou top, está "querendo". Se um homem vai ao baile funk é para se divertir. Se a mulher vai, é porque está "querendo". E o pior é que várias vezes são as próprias mulheres que dizem isto umas das outras.
Não vou fazer nenhuma dissertação a favor de tops ou bailes funk, pois não gosto de nenhuma das duas coisas. O fato é que a mentalidade machista já está tão enraizada que pensamos sem sequer questionar. Tem homem que acha que "gostosa" é elogio. O que é gostoso é comida, e tal sinestesia não me agrada nem um pouco.

Será que uma mulher que vai a um baile funk esta mesmo "querendo"? Será que por sair de minissaia ela dá a outrem o direito de compará-la a comidas e animais? Pode até existir quem goste desse tipo de comentário, mas não sei quem instituiu que isso é o senso comum e que qualquer um tem direito de mexer com uma mulher na rua. O pior é que não vale nem se revoltar. Imagina uma mulher abrindo um processo contra um homem que a chamou de gostosa. O juíz vai rir da cara dela.

Outra coisa que eu não entendo é como é que uma mulher que dança feliz da vida uma música que a chama de cachorra sai no tapa se você a chamar de cadela.

Entendo menos ainda por que é que um homem gostaria de ter uma cachorra por companheira.

Não entendo muitas coisas, mas uma é certa: nem toda mulher "está querendo". E a melhor forma de descobrir com certeza não é usar uma cantada barata.

domingo, 17 de maio de 2009

Sandice

O que todos mais querem hoje é provar para Deus e o mundo que não são normais. A loucura está na moda. É novela, é filme, é orkut, é música, é tudo: uma negação absoluta da normalidade. Hoje em dia ninguém é aceito socialmente se não se declarar ao menos "meio maluco". Eu acho que as pessoas se desiludiram da normalidade. Eu vejo gente caçando sandices em tudo que é lugar para poder afirmar: "sou autista/esquizofrênico/transtornado/louco (ou coisa que o valha". Mas o que é isto, meu Deus?
Há uns vinte anos chamar alguém de louco era ofensa. As famílias em que realmente existiam casos de distúrbios mentais rapidamente se ocupavam em esconder aos olhos da sociedade tal situação. Hoje não: ser bipolar é um charme. Será que de algumas décadas para cá a pressão do mercado de trabalho, o stress ou a mídia fizeram uns 80% da sociedade enlouquecer? Creio que não.

Alguém instituiu "normalidade" como sinônimo de "padronização". Como padronização é um termo cada vez mais carregado de carga pejorativa, o que todos querem é fugir disto. Então acontece uma verdadeira "caça à doença", isto é, procurar qualquer ínfima diferença que os isole da massa. Acontece que sempre vai existir uma diferença. E isto é o que há de mais comum.

É lógico que eu sou contra o preconceito com os doentes mentais. Acontece que o que está ocorrendo é a perfeita banalização destas doenças. Ora, se todo o mundo se declara "meio esquizofrênico", será que um esquizofrênico verdadeiro vai procurar se tratar - e levar a sério este tratamento? Ou pior: será que não demora muito até o sistema de saúde estar abarrotado de pseudo-transtornados (que podem ocupar os lugares de quem realmente precisa)?

Que modinha de anormalidade é essa? Não há nada mais comum do que ter certas atitudes que fujam do que você acha que é "o padrão". Oh, meus amigos: somos perfeitamente normais. Espetáculos da lucidez. Absolutamente sãos.


Graças a Deus.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Descoberta




"Ninguém se apaixona por ninguém. O que as pessoas sentem é encanto pelo que são quando estão em determinada companhia."
Laila Natal
.
.
Pintura: Narciso, de Caravaggio

segunda-feira, 23 de março de 2009

Alimento


Os segundos são o alpiste do tempo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Reniversário

Aniversário é mais um adeus obrigatório para a criança de fora e um olá opcional para a criança de dentro.

O Banquinho está vivo e respirando novamente! Esta semana a modéstia parte e mais postagens virão (espero!). Não me abandonem!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Meu avô e o poeta

De muito tempo eu não entendo esse meu amor profundo pelo Mário Quintana. Não me entendam mal: é um amor familiar, como se ele fosse o avô velhinho, e eu, a netinha aprendiz. Pode ser que seja pelas palavras que ele usa, muitas vezes as que se repetem em muito do que eu escrevo: estrela, sonho, passarinho, catavento... Pode ser que seja pelo jeito tão simples dele de passar as coisas pelos poemas. Não sei. Quando me deparo com algum poema dele, eu paro o que estiver fazendo, respiro e começo. Quando acabo, nunca tenho comentários: é apenas um suspiro. Como alguém que acaba de emergir de um mergulho muito profundo.

Outro dia a minha mãe fez uma observação que eu, incrivelmente, não tinha reparado: ele é a cara do meu avô. A mesma careca, as mesmas rugas, as manchinhas, o mesmo olhar de quem já viu e sofreu muito na vida e hoje não se detém mais a isso. O nariz, as rugas, tudo! Meu vô Delso: igualzinho.

Meu avô é um homem simples. As atividades dele são as mais frugais: sapateiro há mais de 50 anos, pesca sempre que pode, cria um milhão de passarinhos (exagero meu, claro, mas quando eu era menor era assim que parecia). Ele sempre se lembra de tudo: o queijo da minha mãe, o jornal de domingo para mim, a vagem que o meu irmão adora. Ele é casado com a minha avó também há mais de 50 anos, tem os mesmos amigos desde sempre e não abre mão da cervejinha na companhia deles em todo jogo do Botafogo. Ele senta sempre na mesma poltrona. Ele está doente.

Eu passei a ver meu avô como um poeta. A vida dele, tão absurdamente simples, chega a ser um poema vivo. O Mário Quintana colocou no papel toda a fugacidade da vida e a beleza das coisas simples dela. Cultivou um montão de palavras para falar sobre os passarinhos, plantas, peixes, estrelas e sonhos. Meu avô cultivou os próprios passarinhos e plantas, pescou os peixes e muitas vezes me mostrou estrelas e sonhos. Meu avô, que nunca escreveu um verso na vida, é para mim tão poeta quanto o príncipe dos poetas brasileiros.
Meu avô, o poeta.



Meu avô se internou ontem com problemas respiratórios. Você, que está aí lendo, se tiver alguma crença, peço que reze por ele. Para mim vai ter um valor enorme. Obrigada.


(13/02)Gente, meu avô vai ter alta hoje, obrigada pelo apoio de vocês!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Nós, os imortais

Algumas vezes na minha vida (e não foram muitas, dada a minha curta existência por aqui) eu tive uma sensação esquisita de História. A mais marcante foi em 2001. Passei por outras antes, mas foi só na terceira série, com a maturidade impressionante de uma menina de 9 anos, que eu passei a ver as coisas de outro modo. Naquela manhã de setembro eu tinha faltado o colégio porque tive febre, e no meio do meu desenho começou a passar prédio caindo, avião, árabes barbudos.

Depois eu fui vendo outras coisas, sempre com a mesma impressão: eternidade. Acabar de ver algo bom ou ruim que vou poder contar para os meus netos e ver a carinha deles igual à que eu sempre fiz quando ouvia meus avós e bisavós contarem grandes fatos do passado. É algo impressionante, que dá uma sensação de imortalidade.

Hoje foi uma sensação dessa. É claro que vocês já sabem porque. Eu procurei me manter imparcial nas eleições americanas, e várias vezes fui indiferente ao Obama ou à vice escandalosa do McCain. Mas hoje, no juramento da posse, independentemente da qualidade de governo que ele faça daqui por diante, vi que o cara já virou imortal. E nós com ele. Nós vimos.
Yes, we saw.


Obs.: A M.A.P. não acabou, semana que vem tem mais. Só quis fazer do Banquinho um pouco imortal também.
=)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Máquina do tempo

Já tem uns três anos essa história. No dia 23 de dezembro estava eu na fila (gigantesca) da lotérica para pagar umas contas. Eu costumo gostar de filas. Sério mesmo, eu acho interessante (claro, quando não tem mais nada para fazer). É incrível o quanto as pessoas já parecem predispostas a detestar filas. Talvez porque elas tenham sido taxadas como "perda de tempo". Enfim, eu cheguei na fila, tomando minha casquinha de sorvete, ouvindo música e esperei.

As pessoas olhavam o relógio a cada minuto. Todos com pressa, com presentes para comprar, ceia para fazer. Quando chegava a sua vez, pagavam, desejavam um feliz Natal entredentes para a moça do caixa e saíam com seus sorrisinhos vitoriosos olhando o tamanhão da fila que ainda tinha para pagar e pensando "que bom que eu cheguei cedo, bem feito pra essa gente aí".

Quando chegou a minha vez eu fui. Tirei os fones (o sorvete já tinha acabado faz tempo), entreguei o envelope e o dinheiro. A moça fez tudo e me entregou o troco e o recibo, cansada. Eu desejei feliz Natal. Mas foi sério mesmo. Feliz Natal. Assim, de verdade, com todas as sílabas. Eu quis passar para ela um pouco do meu descanso, um pouco de esperança, de tudo (clichê, não?). Mas a moça do caixa nem levantou os olhos e respondeu o pra-você-também automático. Botei os fones de ouvido e saí.



Essa história eu pretendia postar antes do Natal, mas não deu tempo. Até que veio a calhar. Troquem por ano-novo se quiserem. Esses clichês são importantes. Hoje vou vestir branco. Mas o meu branco não quer dizer paz: é uma tela em branco esperando as tintas e as cores do artista. Assim me ponho todos os 31 de dezembro: à mercê do artista, seja lá qual for o nome que você dê a ele. Deixai pintar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Visão realista do tempo

Porque o tempo é uma invenção da morte
Mário Quintana
Eu sempre tive medo de certos programas, poemas, livros, pensadores, pessoas e professores (e recentemente da Sorte do dia no Orkut) que ficam incessantemente dizendo: Aproveite a vida, viva como se fosse o último dia. Porque isto é completamente impossível. Se hoje fosse o último dia da minha vida, não teria estudado para o vestibular de manhã, trabalhado à tarde e postado no Banquinho agora à noite. Simplesmente porque isso tudo foi investimento no futuro.

Está na hora de nos desiludirmos do Segredo (MAIS??) e vermos que o importante é uma visão realista do tempo. Aproveite a sua vida do seu modo: pode ser que a minha felicidade plena não seja pular de bungee jump ou tomar um porre de champagne.

Quando você começa a levar a sério essa de "viva cada dia como se fosse o último" ou "a juventude é um tempo que não volta" corre o risco de ficar constantemente frustrado. (Caso a sua felicidade seja comer caviar, e é o que você faria antes de morrer, por acaso você tem dinheiro para fazer isso todo dia?).

"Amigos, não consultem os relógios", disse o amor da minha vida (Mário Quintana). Do contrário, poderíamos perder a doce recompensa de coisas simples como plantar para depois colher. Porque é exatamente o fato de que podemos esperar do futuro, que podemos ter fé no feedback do que fazemos hoje e de que podemos parar e olhar o tempo como se tivéssemos a eternidade ali, do nosso lado, que faz a beleza desta vida.

"Se a vida é tão curta como dizes, por que me estás lendo até agora?" MQ

Agora dois agradecimentos especiais a duas pessoas que perderam um pouco do suposto "último dia de vida" para prestigiar este humilde Banquinho, que nem é de madeira de lei: a dona Barbarella, que me presenteou com o primeiro selo do blog; e meu primeiro seguidor, o "homem da cultura" Sanger.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Não era.

Não podia ter sido. Helena relembrava o início. Sempre foram bons amigos, e ela sempre quis fazer parte da vida dele. Quantas indiretas, quantos chamados. Ela toda vestida de vermelho na porta do cinema esperando por ele. Ele não foi.
No início do ano, ele ligou. Quis se redimir do bolo. Foram. Helena passou a tarde pensando: "se ele não tomar uma atitude, vou agarrar ele". E Luis não tomou atitude nenhuma. E ela também não o agarrou. Foi só um selinho.
Meses de vai-não-vai, até que ela resolveu botá-lo na parede:
_Luis, você tem algum sentimento por mim além da amizade?
_Olha, Helena, não posso dizer que não...
_Mas também não pode dizer que sim, né?
_Não é assim... é só que... eu não sei. Eu não gosto dessa cidade, eu vou embora ano que vem, e não queria nada que me prendesse aqui.
Começaram a namorar naquela noite.
Desde o início ela nunca mais foi a mesma. Ela queria conservá-lo a todo custo. Só agora via que não queria conservá-lo: queria tê-lo. Porque embora fosse dela, ela viu que nunca o teve. Era o mesmo aperto no estômago todas as noites. Aliás, todo o tempo. Ele viajava, ele se atrasava, e para ela sempre tudo bem.
Não durou nem dois meses. Ele chegou de viagem diferente, ela percebeu. Luis falou que precisava conversar com ela. E ela já sabia. Marcaram para a tarde. Na hora do almoço ela não quis comer, foi tomar banho. Cortou as pernas ao se depilar, se vestiu toda de roxo e foi.
Ele foi educado. A mesma conversa do início. Helena não sabia nem o que sentir. Não era a dor de perdê-lo, porque ela nunca o teve. Foi mais como uma batalha perdida. Batalha não, guerra. Ele disse que queria que eles continuassem amigos, ela disse que não conseguiria.
Eles se viam todo dia no colégio. Primeiro, ela cumprimentava. Depois passou a baixar os olhos. Um soco no estômago. Era assim que ela sentia quando o via, quando falavam dele. Seu consolo foi que seria um artigo definido na vida dele: A primeira namorada.
Nos momentos de maior orgulho dela, alguém sempre tinha que mencionar o Luis. Ainda que não fosse por mal. Não houve um só dia em que ela acordasse sem pensar "ano que vem ele vai embora e eu nunca mais vou precisar olhar na cara dele".
E agora, lembrando de tudo, ela chegou a uma conclusão: "não podia ter sido amor. Porque eu não quero que ele seja feliz. Foi doença, não sei o que foi. Queria ser a águia pra comer o fígado dele todo dia." E ela pensava nas lágrimas invisíveis, procurando um motivo justo para chorar de verdade.
Não era.
Não era.
Não é.



Meu primeiro conto!!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Formalidades

Se livro falasse, todo mundo chamaria de senhor.