Quem me conhece, conhece os meus poetas.
Nas minhas veias corre caligrafia,
corre tinta de suas canetas.
Músculos, tendões, junções de ossos:
tudo rima, tudo letras.
Aspiro verso, expiro prosa.
Coração bate métrica.
Olhos, boca, ouvidos,
Infinitude de sentidos
Cheiram, engolem, sentem
Lirismo.
A poesia não vem de mim
Eu é que vou para ela.
Não sou poeta:
Eu sou da poesia.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Carta a Cecília
Querida Cecília,
Pode parecer estranho que eu, viva, escreva para ti, morta; mas não é mais estranho do que tu, viva, escreveres para mim, que sequer cogitava nascer. Certo?
Não sou poeta, na verdade nunca fui, embora tenha gostado muito de achar que o era, quando mais nova. Digo, porém, que gosto imensamente de poesia, e isso se deve primeiramente a ti. Te conheci por acaso, aos oito anos, e não penses que foi por "ou isto ou aquilo" ou "leilão de jardim", não! O primeiro poema teu que li foi no jornal, e hoje infelizmente não me lembro mais do nome e nem de qualquer verso, mas era sobre uma dama que caminhava em direção à guilhotina ou à forca, enfim, à morte. Achei bonito, mas muito triste, e quando mais tarde tive de escolher um poema teu para decorar para o trabalho da escola, escolhi "ou isto ou aquilo", como todos os outros da minha sala.
Então, com esse poema belo e triste, entraste na minha vida e de lá nunca mais saíste. Minha madrinha me emprestou um livro teu, que foi o meu primeiro livro de poesia e que, naturalmente, nunca mais devolvi (não que ela tenha cobrado, é claro. Aliás, ficou até muito orgulhosa por eu ter gostado tanto).
Fiz, assim, minha primeira incursão pela poesia, e conheci meninas pintadas, cavalos mortos e rosas atiradas.
Chorei com tua "Elegia" e sorri com o ovo azul. E quando subi (literalmente) em um banquinho para homenagear minha mestra, foi "Aluna" que li.
Ah, Cecília, me acompanhaste a vida inteira.
Depois de ti, os outros poetas que conheci eram quase todos homens: Carlos, Vinícius, Mário, Manuel, Olavo, Augusto e os outros todos.
Além de ti conheci também Adélia, e com ela senti e aprendi muito.
Mas se a poesia hoje é para mim o que é, é graças a ti.
Acho que não poderia ter-me iniciado de maneira melhor. Se tivesse começado com outros poetas mais modernos, talvez não desse o devido valor à forma. Ou, se meu primeiro livro fosse de poemas menos profundos, talvez eu nunca tivesse tido real vontade de aprofundar-me. Ou, ainda, correria o risco de não ver na poesia a alma feminina que existe até nos escritos dos homens.
A poesia deu sentido à minha vida, e tu deste sentido à poesia desde sempre.
Eternamente grata,
Laila.
Pode parecer estranho que eu, viva, escreva para ti, morta; mas não é mais estranho do que tu, viva, escreveres para mim, que sequer cogitava nascer. Certo?
Não sou poeta, na verdade nunca fui, embora tenha gostado muito de achar que o era, quando mais nova. Digo, porém, que gosto imensamente de poesia, e isso se deve primeiramente a ti. Te conheci por acaso, aos oito anos, e não penses que foi por "ou isto ou aquilo" ou "leilão de jardim", não! O primeiro poema teu que li foi no jornal, e hoje infelizmente não me lembro mais do nome e nem de qualquer verso, mas era sobre uma dama que caminhava em direção à guilhotina ou à forca, enfim, à morte. Achei bonito, mas muito triste, e quando mais tarde tive de escolher um poema teu para decorar para o trabalho da escola, escolhi "ou isto ou aquilo", como todos os outros da minha sala.
Então, com esse poema belo e triste, entraste na minha vida e de lá nunca mais saíste. Minha madrinha me emprestou um livro teu, que foi o meu primeiro livro de poesia e que, naturalmente, nunca mais devolvi (não que ela tenha cobrado, é claro. Aliás, ficou até muito orgulhosa por eu ter gostado tanto).
Fiz, assim, minha primeira incursão pela poesia, e conheci meninas pintadas, cavalos mortos e rosas atiradas.
Chorei com tua "Elegia" e sorri com o ovo azul. E quando subi (literalmente) em um banquinho para homenagear minha mestra, foi "Aluna" que li.
Ah, Cecília, me acompanhaste a vida inteira.
Depois de ti, os outros poetas que conheci eram quase todos homens: Carlos, Vinícius, Mário, Manuel, Olavo, Augusto e os outros todos.
Além de ti conheci também Adélia, e com ela senti e aprendi muito.
Mas se a poesia hoje é para mim o que é, é graças a ti.
Acho que não poderia ter-me iniciado de maneira melhor. Se tivesse começado com outros poetas mais modernos, talvez não desse o devido valor à forma. Ou, se meu primeiro livro fosse de poemas menos profundos, talvez eu nunca tivesse tido real vontade de aprofundar-me. Ou, ainda, correria o risco de não ver na poesia a alma feminina que existe até nos escritos dos homens.
A poesia deu sentido à minha vida, e tu deste sentido à poesia desde sempre.
Eternamente grata,
Laila.
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