sábado, 31 de outubro de 2009

Falando difícil - O vocabulário e o pensamento


"O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita"
João Guimarães Rosa

Um vocabulário vasto não implica necessariamente em um pensamento vasto, porém um pensamento amplo exige um vocabulário amplo. Por vocabulário aqui entende-se o seu sentido mais simples: número de palavras conhecidas. De forma resumida, quanto mais verbetes se conhece, mais "coisas" se pode nomear e relacionar.

Provavelmente alguém já está pensando que, se determinado indivíduo conhece os objetos e os sentimentos, pode saber relacioná-los sem precisar conhecer seus nomes. Pode até ser, mas o limite do pensamento vai muito além do que se vê e do que se sente. Afinal, como explicar a uma pessoa o que é "direito" ou o que é "literatura" sem utilizar palavras?

Além do vocabulário, para articular um pensamento é preciso também um mínimo de gramática. Afinal, uma palavra só se encaixa na outra quando vem aquele batalhão de conjunções, apostos, objetos, etc. Gramática não para tolhir, mas para dar fluidez ao pensamento, para conectar, para tornar coeso.

Nos últimos tempos tem feito muito sucesso a teoria das "múltiplas inteligências". Só que grande parte dessas são "múltiplos instintos", como por exemplo a tão citada "inteligência futebolística" de Garrincha. Inteligência para mim é capacidade de formular pensamento próprio. Todo mundo nasce com a mesma inteligência, só que nem todos procuram ou têm condições de desenvolvê-la.

Como disse o mestre Guimarães Rosa, o homem nasceu para aprender. E quanto mais aprende, mais pode aprender, mais pode pensar. Quanto mais conhecimento se tem, mais conhecimento se produz, e é assim que a gente evolui. O autor da frase lá em cima, por exemplo, chegou ao ponto em que aprendeu tanto que para seu pensamento não bastava o vocabulário existente: ele precisava criar mais palavras para se expressar. Fica um trechinho dele pra remoer:


"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: pra pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém."

João Guimarães Rosa
Grande Sertão - Veredas

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Falando difícil


"Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento."
Ludwig Wittgenstein

Desde que li A Trilogia de Nova York, do Paul Auster, fiquei com um pensamento na cabeça: até que ponto o domínio da linguagem - ou a falta dele - interefere na mente, no comportamento e nas relações humanas. Há uns dois ou três anos eu tenho pensado nisso, e vira e mexe encontro algum texto falando sobre o assunto.
Semana passada terminei o Vidas Secas, do Graciliano Ramos, que não trata da articulação da língua, mas da vida sertaneja. Só que, no meio do sertão, Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos são como magistrais exemplos do impacto que causa a falta de vocabulário no pensar e nas atitudes.
Para completar, no vestibular simulado do Pitágoras o texto que abria a prova de português era justamente um artigo do Cláudio Moreira de Castro (Os meninos-lobo, Veja, 08 de julho de 2009) a respeito das crianças que nasceram isoladas sem oportunidade de aprender a falar. Foi o empurrão que faltava.
A discussão deu tanto pano pra manga que eu resolvi fazer não um texto, mas uma série (até agora penso em três textos, mas acho que dá para diminuir ou aumentar dependendo das ideias) sobre o "falar difícil".
Espero que gostem!

domingo, 18 de outubro de 2009

O tal do verbivocovisual

A razão humaniza o homem, mas o que o eterniza é o sentimento. Na vida eu não sei, mas na arte é assim que me parece ser. A matéria de Literatura bimestre passado foi a poesia concreta, e não posso negar que ela realmente é diferente de tudo o que já vi antes. Palavras estranhas, coloridas, de diferentes tamanhos, espalhadas na página, às vezes até a ausência delas. Se faz pensar? Sem dúvida.

Um dia minha mestra falou que a gente pode até não gostar de determinado autor ou poema, mas o que mostra se o tal poeta tem qualidade ou não é o estranhamento que ele causa em nós. O que não pode é passar indiferente. Não posso dizer que a poesia concreta passou despercebida por mim - muito pelo contrário, achei até bem esquisita - mas nada me tira da cabeça que toda aquela rebeldia contra a forma, a cor, as fontes estranhas, não têm outra função senão disfarçar um vazio imenso, gigantesco, colossal de conteúdo e alma.

Os parnasianos foram o contrário: fizeram uma escultura maravilhosa de palavras, digna de um templo grego: a forma perfeita, a métrica exata, a rima, os versos trabalhados num poema oco. O mesmo vazio de conteúdo e alma. Talvez por isso até hoje todo mundo olhe o movimento parnasiano com certa antipatia. Quem geralmente se salva é o Bilac, justamente porque tratou dos sentimentos. Com aquele jeitão, em cima de um pedestal de mármore, não importa. Os sentimentos dele são os mesmos de qualquer plebeu.

A razão nos individualiza: é ela que nos dá a graça de sermos diferentes uns dos outros. Ela nos humaniza e nos torna grandes, significativos e poderosos.
O sentimento aproxima, coletiviza. Ele é igual. E justamente por isso eterniza determinada arte, pois o cidadão vê seu sentimento no poema, do jeitinho que ele sente: só precisava de um ser iluminado - o poeta - para transcrevê-lo.

O apego demasiado à forma - seja à perfeição ou à completa disgressão dela - é disfarce. A métrica é boa, a rima é boa, quando servem para enriquecer o conteúdo do poema, o sentimento do poema. O que não pode é deixar a alma em segundo plano para caber num verso decassílabo ou redondilho.

Até porque coca-cloaca do Décio Pignatari e o crisantempo do Haroldo de Campos são uma beleza, mas nunca vão ter a sustância da terra de um João Cabral de Melo Neto, a doce ironia das ruas de um Mário Quintana ou o pulsar desesperado do coração de um Álvares de Azevedo.


Para quem ficou curioso
http://www.poesiaconcreta.com.br/

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Crianças desaparecidas

Na segunda feira muitas crianças receberam presentes e abraços. Houve sorrisos, papel brilhante, cartões alegres. Muitas, não todas. Algumas crianças não: as crianças desaparecidas.
Essas crianças se contentaram com um sorriso indulgente, e talvez assistiram escondidas a algum desenho animado ou cantaram músicas da Xuxa no banho. Elas já sumiram há um bom tempo. A maioria dos pais já se desiludiu e parou de procurá-las e a quase unanimidade deles sente saudades.
Muitas delas sentem falta de casa, e algumas chegam a lembrar dos bons tempos passados com uma boa dose de lágrimas. Essas crianças trabalham ou estudam ou fazem as duas coisas. Talvez quem mais as procure sejam elas próprias. Muitas vezes elas só querem um colo quentinho ou um bolo de chocolate assando no forno.
As crianças desaparecidas somos nós.
As crianças que fomos não morreram: elas sumiram. Elas existem. Estão em algum lugar, brincando de Barbie ou jogando bolinha de gude.
Procura-se.
Procura-te.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Soprando velinhas


É com orgulho e vergonha que eu venho anunciar o aniversário do Banquinho! Orgulho porque quando eu criei este blog eu nunca imaginei que ele duraria tanto, e também porque me sinto muito realizada escrevendo aqui e principalmente vendo que algumas pessoas parecem realmente gostar dos meus posts e vêm sempre sentar para me escutar. Já a vergonha é porque na verdade o blog fez um ano há mais ou menos uma semana, e eu vergonhosamente me esqueci da data. Mas isso pode ser superado (eu acho).

Então eu decidi fazer um post especial, no qual eu pretendo fazer o que sempre faço aqui: abrir meu coraçãozinho para vocês, queridos leitores. Só que desta vez não é sobre política, nem vestibular, nem literatura, nem filosofia, nem música: é sobre mim e o blog mesmo. E, naturalmente, sobre vocês também.

Há um ano e uma semana, uma menina do segundo ano do ensino médio resolveu criar um blog para ter uma desculpa para escrever tudo o que pensava. Não, não vou contar a história em terceira pessoa porque isso é ridículo. É que a gente muda e não sei o quanto eu ainda sou a mesma. Relendo os posts do ano passado eu vi o quanto passei a escrever diferente -e, por extensão, pensar diferente- neste tempo. O Banquinho veio crescendo junto comigo.

Vou aproveitar a ocasião e explicar por que diabos o blog tem este nome. Tudo começou numa feira de cultura do meu colégio quando eu estava na oitava série. Cada aluno ou grupo de alunos faz um trabalho e apresenta, e o meu trabalho foi... um banquinho. Todo mundo chegando com suas cartolinas, maquetes, experiências e tudo o mais e eu carregando um banquinho. Pequenininho, desses de apoiar os pés. Tinha uma mesa com vários livros de poesia e do lado dela eu coloquei o banquinho e esperei. As pessoas foram chegando e eu pedia para elas subirem no banquinho e declamarem um poema, ainda que fossem apenas alguns versos. E foi um sucesso maior do que eu esperava! As pessoas olhavam, desconfiadas, se faziam de rogadas e depois subiam e liam e falavam. Depois desse trabalho, quando eu saía na rua as pessoas diziam "olha lá a menina do banquinho!" e fiquei sendo isso aí mesmo.

Manter um blog é um desafio. No post "humildade" aí embaixo eu tentei explicar que escrever não é mole. Só que é extremamente gratificante. Eu me lembro do primeiro comentário, que foi de uma pessoa que eu nem conhecia! E depois outros comentários, de outros desconhecidos, tudo tão emocionante! Só bem, bem depois foi que os meus amigos foram descobrir o blog, e pouquíssimos chegaram a comentar aqui (as colegas Dora, que virou blogueira também, e Isabela). E os desconhecidos viraram amigos, tanto os que também eram blogueiros, como o Sanger, o Fábio, a Antônia, o Orochi, a Marina, o Márcio e vários outros, quanto os não blogueiros, como a Ana (a primeira comentarista), o Rafael mais alguns.

Comecei com o blog sozinha, pensando "o que vier é lucro". E o lucro foi grande. Hoje o Banquinho tem 14 seguidores (!!!), fiz bons amigos e ainda ganhei, se não a admiração, pelo menos o respeito, de várias pessoas. Nem sei se realmente mereci isso tudo, mas se hoje estou postando neste blog há 1 ano, é pelo menos 90% graças a vocês, que são os melhores, mais educados e mais cultos leitores da blogosfera (e eu acho isso de verdade!). 10% são meus, porque o blog não se atualiza sozinho, né?

Vocês fizeram o Banquinho crescer e fizeram de mim uma vestibulanda menos neurótica, e digo até uma pessoa melhor.

Vocês são o máximo! Muito obrigada!

domingo, 20 de setembro de 2009

Augusto e eu

Quando eu conheci Augusto (e isso tem uns 4 anos), eu, de cara, já não simpatizei com ele. Hipocondríaco, bebia muito, fumava mais ainda e falava o tempo todo de morte, de vermes, desgraças em geral. Lembro-me de dizer a muitas pessoas "que cara negativista, não gosto dele, não" e até de desviar os olhos se por acaso o visse. Juro que se ele não fosse tão velho, eu diria que ele tinha umas tendências a emo.

O tempo passou e eu parei de desviar os olhos e passei a ouvir o que ele tinha a dizer. Do quanto a vida é curta, a dor é grande e os amores são cruéis. E inicialmente eu discordei de tudo. Depois, só bem depois, foi que eu vi que não precisava concordar ou não com ele: era simplesmente uma questão de reconhecer que aquela era a verdade dele e respeitá-la.

Foi aí que eu vi que Augusto mexia comigo mais do que qualquer outro. Depois das palavras dele, eu pensava por muitas horas, e várias vezes chorei. E vi o quanto a verdade dele podia ser tão verdadeira às vezes.

Alguns dizem até gostar de Augusto, mas que ele é boa companhia somente nas horas de tristeza ou desespero. Eu já acho justamente o contrário: só se deve procurá-lo nos dias de sol, quando se está absolutamente bem resolvido com a vida e os amores. Primeiro porque, apesar de compreensivo, ele não é muito consolador e apresenta algumas ideias suicidas. Segundo porque ele sempre oferece bebida e cigarros nessas ocasiões, e eu não aprecio nenhuma das duas coisas.

Então, caro leitor, no seu dia de sol quando for encontrar Augusto, é muito provável que ele diga todas as coisas de sempre. E quando ele disser que a felicidade não existe você vai sorrir, apontando para si e dizendo "existe sim, olhe aqui" e ele vai balançar a cabeça descrente e acender um cigarro. Você vai voltar para sua vida e seus amores muito mais ciente da real existência deles e vai pensar "Augusto, seu tolinho, você não sabe o que está perdendo".
Não, ele não sabe. Mas graças a ele você sabe o que está ganhando.

Augusto.
Dos Anjos.
Poeta naturalista.
Nascido em 1884.


Para quem não teve a honra de conhecê-lo ainda: http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp
http://www.jornaldepoesia.jor.br/augusto03.html

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Blog Day 2009


Ladies and gentleman, this is blog day 2009!! Este dia é dedicado para blogueiros all over the world conhecerem e divulgarem blogs alheios, para uma maior interação na blogosfera.
As regras são as seguintes: cada um deve indicar em seu blog cinco blogs alheios, de preferência que tratem de assuntos e culturas diferentes da sua.
Vou postar aqui então alguns blogs que visito sempre e que acho excelentes, cada um dentro da sua área específica.

Começarei com um blog projeto: o Livro sem Fronteiras, escrito pelo Fernando Monção, que tem o plano de transformar Valença na Cidade da Leitura. Não preciso nem dizer que apóio completamente.

O próximo contemplado é sobre entretenimento em geral temperado com muita cultura otaku: o Chamando o Coringa, do Marcus Orochi.

Apesar de ser muito suspeita para indicar este blog, faço-o mesmo assim e recomendo o Lamento de um Blue, da colega Dora, que fala de forma muito profunda de boa música, literatura e pensamentos em geral.

Consta também o D. Quixote em Valença, blog do Sanger, que apesar da tendência política oposta à minha discorre brilhantemente sobre os acontecimentos populares de Valença, do Brasil e também dos particulares.

Agora cito o Comuna Virabossa, que tem textos inteligentes e muito bem escritos sobre música e História, além da "cultura e contracultura" mantido pelos irmãos Virabossa.
Estão aí, todos devidamente aprovados pela moça do Banquinho, prontos para serem lidos pelos senhores. Façam bom proveito!

sábado, 22 de agosto de 2009

"Pega a faca e mata!"

Outro dia me deparei com o álbum mais ferrenhamente vegetariano que já vi. 95 fotos de pura militância anticarnívora. Quando cheguei à 40ª foto, já estava considerando a hipótese de me tornar herbívora até que ouvi o chamado de "quem quer hambúrguer!?" e fim da história.

Neste meu curto tempo de vida até agora já ouvi absurdos como "eu não como carne, só como picanha" e "eu sou vegetariana, mas como nuggets". Claro que isso dá o que pensar. As pessoas não comem carne por diversos motivos, algumas por gosto, outras pelo peso e muitas por filosofia de vida. Gosto e peso são problemas muito pessoais, então vamos à filosofia.

É comum ouvir grandes dissertações sobre as emissões de metano causadas pelas criações de gado mundo afora. Acontece que os aterros sanitários, onde é depositada a maior parte do lixo orgânico mundial, emitem muito mais metano. E o lixo orgânico, além de restos de carne, inclui também saudáveis e puros restos e cascas de vegetais e frutas. Ainda sobre o monstruoso aquecimento global, é importante dizer que os adorados computadores em que os respeitáveis vegetarianos divulgam suas idéias verdes são produzidos em sua maioria por empresas de capital norte-americano, sendo que os EUA nem assinaram o protocolo de Kyoto.

Outro argumento muito comum é a crueldade com os animais, e é aí que eu chego ao verdadeiro assunto do texto: a crueldade. A crueldade está cada vez mais cruel. Se hoje eu digo que não dispenso um bom churrasco, que o queijo não é a mesma coisa sem o presunto e que não tem palmito que substitua um molho à bolonhesa tem gente pronta para me chamar de assassina. Porém, muitos fecham os olhos para as crueldades cometidas nas touradas, nos rodeios, nos circos, nas rinhas de galo e nos reality shows que divertem todo o mundo.

Reality shows? É, eles mesmo. Afinal, o que poderia render mais Ibope que tortura humana, seja ela física ou psicológica? Que tipo de humanidade senta no sofá para assistir pessoas comendo olhos de cabra, embriões de pintinhos, peixes vivos e outros "alimentos"? Todos prontos para passar por cima dos seus escrúpulos, dos seus valores e dos seus limites para ganhar altas somas de dinheiro. E os filmes? As tropas de elite da vida? Tortura esgota bilheterias.
Crueldade.
E antes que venham com grandes discursos dizendo que a culpa é do capitalismo, que ele torna as pessoas selvagens, estejam os senhores leitores devidamente lembrados que as execuções públicas já eram atração há mais de 2 mil anos e que os combates entre cavaleiros divertiam a sociedade feudal.
A crueldade parece quase inerente. Se a humanidade não evoluiu a ponto de se tornar boa consigo própria, imagine tornar-se piedosa para com os animais. Antes defender a própria espécie! Se bem que, com essa crueldade toda, nem sei porque me dou ao trabalho.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Baú de Espantos e o PC

Se cada um de vós, ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão -
se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
faria uma verdadeira viagem...
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.
.
Invitatión au voyage, Mário Quintana em Baú de Espantos.
.
.
Quando Baú de Espantos foi publicado, em 1986, Quintana, os poetas e o mundo estavam preocupadíssimos com o quanto as pessoas renunciavam à "vida lá fora" em nome da televisão.
Pobre Quintana, pobres poetas, pobre mundo! Eles não esperavam pelo personal computer! Ou pelo menos não pelo sucesso que este faria. Nossos amados computadores agora são muito mais do que tvs: são também tvs e são livros e são rádios e são vitrolas, telefones, máquinas fotográficas, amigos e amores.
Bom ou ruim? Outros já falaram sobre isso mais e melhor que eu, então não vou perder meu tempo e o leitor também provavelmente já tem sua opinião formada.
Na verdade, me alongo à toa. Este poema é a minha desculpa. Tenho ficado muito tempo sem postar e fico me sentindo culpada. Mas é por nobre causa! É pela nobreza de um livro de poemas, de uma composição do Villa-Lobos e da companhia dos amigos.
Ó, leitor! Vá abrir um livro de poemas! Me sinto honrada com a sua companhia, mas não deixe seus poetas, seus músicos, seus amigos e amores para ficar no computador! Vá para eles! E quando estiver cansado ou tiver vontade, volte. Nos veremos de novo, ambos ainda mais repletos de poesia, de música, de amizade e amor.
Boa viagem.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pandemia, pandemônio

Pandemônio: (sm) 3. Balbúrdia, tumulto

Somente na África, morre uma criança de menos de 5 anos a cada trinta segundos infectada pela malária. Estima-se que existam 18 milhões de pessoas infectadas com doença de Chagas nos países latino-americanos. Nos países em desenvolvimento, mais de 20% da população tem infecção contínua por giardíase.
Sabia?
Se sabia, provavelmente é vestibulando ou foi há pouco tempo.
Mas isto aqui não é um blog médico. O que acontece é o sensacionalismo. A nova gripe matou (estimativa!) umas 60 pessoas no Brasil e o álcool gel some do mercado, e todo mundo quer máscara e deve-se evitar multidões e aglomerados.
Por que este pandemônio?
As protozooses citadas no primeiro parágrafo atingem principalmente as populações pobres que vivem em condições pífias de saneamento e higiene. É por isso que não há sensacionalismo em cima delas: afinal, se a população já está morrendo mesmo por causa da fome e da violência, por que se preocupar com as doenças?
Enquanto isto, nas grandes cidades, as pessoas adiam seus intercâmbios e suas viagens internacionais e lotam as clínicas com medo da Influenza A, que já foi tachada de pandemia. E agora por causa da gripe há mobilizações gigantescas da OMS para desenvolver tratamentos, vacinas e conscientizar o povo.


Enquanto isso as crianças africanas vão morrendo, duas a duas, a cada minuto.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Falsos pudores

Pudor: sm 1 Sentimento de pejo ou vergonha, produzido por atos ou coisas que firam a decência, a honestidade ou a modéstia.
3 Pundonor, recato, seriedade.


Nesses programas "reality show", entre outros assuntos altamente filosóficos, fala-se muito em combater os falsos pudores. Por falso pudor o senso comum entende "uma atitude que você tomaria em casa ou entre seus amigos mais próximos e que não externa no meio da sociedade por vergonha". Há até quem diga que o falso pudor é um tipo de falta de caráter. E o pudor verdadeiro? Alguém sabe diferenciar um do outro? Nessa de "tirar as máscaras" as pessoas não abrem mão só do falso pudor: existe gente (e não é pouca!) sem pudor algum.

Levanto outra questão: e o pudor inverso? Gente que é por demais séria ou recatada em casa, entre os amigos, mas quando chega na sociedade tem que aprender a se soltar para não ser acusada de conservadorista ou falsa moralista. Eu já passei muitas vergonhas por ter vergonha. Já tive que me desculpar por não gostar de palavrão, já tive que justificar outras tantas vezes porque não gosto da dança do créu e até por causa de um post aqui no blog já tive que ouvir que gostosa é elogio sim!

Então é o fim dos "filtros"? Quer dizer então que é muito mais verdadeiro portar-se da mesma forma em todos os lugares, sem o mínimo de preocupação com a linguagem, com os gestos e até com as roupas? E olhe que pudor não é só a vergonha produzida pela moralidade e pelos costumes. Como a própria definição da palavra diz, pudor é também ter vergonha de atos que firam a honestidade.

Antes falso pudor que pudor nenhum. E digo mais: o "falso pudor" não é nem falso, pois nada mais é do que ter vergonha de ter certas atitudes em público. O verdadeiro falso pudor é fingir que se tem vergonha de algo que não tem.

O que falta neste mundo, neste país, nesta sociedade é uma boa dose de pudor. Vergonha na cara, se quiserem uma expressão mais direta. E isso para qualquer ocasião: seja para saber que nem todo mundo que vai à praia quer se deparar com um topless, que grande quantidade de mulheres não gosta de ser despida com os olhos, que nem todo mundo acha graça em piadas sujas, ou mesmo para não saber onde enfiar a cara quando se é pego fazendo algo que contrarie "a decência, a honestidade ou a modéstia".
Bom senso não basta. Tem que ter muito pudor.
Verdadeiro.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Catarse ha-ha-ha

Ridendo castigat mores

Existem vários tipos de humor. Humor barato, negro, inteligente, sujo e até o chamado "humor engraçado" como inventaram ultimamente. O humor é muito amplo, é necessário especificá-lo: este texto é sobre humor barato político brasileiro. O leitor naturalmente está pensando que humor político se classificaria melhor em "inteligente" que em "barato", mas é bom não confundir: é humor barato versão política. Brasileiro, pois não tenho vivência no exterior para saber como é por lá.

O provérbio latino na epígrafe quer dizer "rindo corrigem-se os costumes". Na comédia do teatro clássico, existia este processo de fazer rir para corrigir o senso comum. O humor era uma ferramenta política. Por meio dele, o cidadão enxergava defeitos e falhas da sociedade para depois corrigi-los. O que se vê hoje na maioria das charges, das publicações humorísticas e dos programas televisivos (maioria não é totalidade!) é a completa falência do sistema de rir para castigar.

Agora, o que se faz é rir para acomodar. O provérbio que melhor expressa é "só rindo para não chorar". É muito mais fácil banalizar (ou baratear) para consolar. Um povo anestesiado com humor barato se torna menos crítico. Dinheiro na cueca? Castelo escondido? Farra de passagens? HA-HA-HA. Seria hilário se não fosse trágico. E isso tudo é explorado que é uma beleza. E o povo ri. Ri sem castigar costume nenhum. Ri para não chorar. Ri sem protestar, sem questionar, sem mudar de atitude. Ri porque não tem jeito nem jeitinho que resolva.

E o mais triste (ou seria mais cômico?) é que os próprios políticos passaram a levar na brincadeira. Riem junto com o povo, da cara do povo, na cara do povo.
Ficou tudo tão engraçado que tem gente se esquecendo até de ficar sem graça.
Quer saber? Não tem graça nenhuma.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Posse

Decorar poemas é como catar conchinhas: as pessoas tentam de todas as formas se apossar de uma beleza sublime que não é sua nem pode vir de si, só para poder admirá-la quando lhes apraz e mostrá-la a quem possa interessar com ar de dono.




Obs.: O Banquinho está no jornal! O artigo sobre o novo ENEM está na edição 37 do Valença em Questão, que saiu na quinta feira. A edição está especialmente voltada para a Educação, e está disponível para baixar no blog do VQ (http://blogdovq.blogspot.com/).

domingo, 28 de junho de 2009

A sociologia e o caipvodka

Festa junina. Agora nas quadrilhas tem tango, tem música da Xuxa, tem música indiana, tem música do Michael Jackson (um minuto de silêncio). As caipiras agora usam cinta-liga e meia 7/8. O arrasta-pé virou batidão. E a batida e o quentão não dão mais lucro.
Como as festas de colégio ainda são familiares, resolvemos vender então algo mais familiar: caipfruta com guaraná para as crianças, com uma dose modesta de vodka para os adultos e fondue de chocolate. Mais para o fim da noite, vendo nosso lucro desaparecer, resolvemos vender a alma a vodka pura em doses. Vou tratar o texto como um relatório, isto é, sem opinião, só os fatos.
1 - Das quantidades:

Foram compradas 4 garrafas de vodka. As primeiras duas, em forma de caipfruta, demoraram seis horas para serem vendidas. As outras duas acabaram em 45 minutos.

2 - Dos preços:

Qualquer cidadão maior de 18 anos pode comprar uma garrafa de um litro de vodka por R$3,00 em um supermercado. As doses têm aproximadamente 60mL e são vendidas a R$2,00 cada. E acabam rapidinho.

3 - Dos comentários:

"Arrrrrgh mas isso é muito ruim. Me vê mais uma aí!"

"Ahn, o fondue engorda muito, né? Me vê dois caipvodkas então."

"_Quanto é o caipfruta?
_É dois reais.
_O que é que leva nisso?
_Morango, leite condendado e uma dose de vodka.
_Uma dose só?
_É, uma só.
_Poxa, mas dois reais é muito caro pra uma dose só! Você vende vodka pura?
_Vendo.
_Quanto é?
_É dois reais a dose.
_Ah então eu vou querer uma."


Se beber, não dirija.

terça-feira, 2 de junho de 2009

"Tá querendo"

Não entendo por que é que na nossa sociedade a mulher está sempre "querendo". Se um homem sai em camisa, está com calor. Se uma mulher sai de decote ou top, está "querendo". Se um homem vai ao baile funk é para se divertir. Se a mulher vai, é porque está "querendo". E o pior é que várias vezes são as próprias mulheres que dizem isto umas das outras.
Não vou fazer nenhuma dissertação a favor de tops ou bailes funk, pois não gosto de nenhuma das duas coisas. O fato é que a mentalidade machista já está tão enraizada que pensamos sem sequer questionar. Tem homem que acha que "gostosa" é elogio. O que é gostoso é comida, e tal sinestesia não me agrada nem um pouco.

Será que uma mulher que vai a um baile funk esta mesmo "querendo"? Será que por sair de minissaia ela dá a outrem o direito de compará-la a comidas e animais? Pode até existir quem goste desse tipo de comentário, mas não sei quem instituiu que isso é o senso comum e que qualquer um tem direito de mexer com uma mulher na rua. O pior é que não vale nem se revoltar. Imagina uma mulher abrindo um processo contra um homem que a chamou de gostosa. O juíz vai rir da cara dela.

Outra coisa que eu não entendo é como é que uma mulher que dança feliz da vida uma música que a chama de cachorra sai no tapa se você a chamar de cadela.

Entendo menos ainda por que é que um homem gostaria de ter uma cachorra por companheira.

Não entendo muitas coisas, mas uma é certa: nem toda mulher "está querendo". E a melhor forma de descobrir com certeza não é usar uma cantada barata.

domingo, 24 de maio de 2009

Orgânico não é vivo

E não venha me convencer que pirulito é fenol, mini-colméia é naftaleno e sol é benzeno porque eu não acredito em nada!

domingo, 17 de maio de 2009

Sandice

O que todos mais querem hoje é provar para Deus e o mundo que não são normais. A loucura está na moda. É novela, é filme, é orkut, é música, é tudo: uma negação absoluta da normalidade. Hoje em dia ninguém é aceito socialmente se não se declarar ao menos "meio maluco". Eu acho que as pessoas se desiludiram da normalidade. Eu vejo gente caçando sandices em tudo que é lugar para poder afirmar: "sou autista/esquizofrênico/transtornado/louco (ou coisa que o valha". Mas o que é isto, meu Deus?
Há uns vinte anos chamar alguém de louco era ofensa. As famílias em que realmente existiam casos de distúrbios mentais rapidamente se ocupavam em esconder aos olhos da sociedade tal situação. Hoje não: ser bipolar é um charme. Será que de algumas décadas para cá a pressão do mercado de trabalho, o stress ou a mídia fizeram uns 80% da sociedade enlouquecer? Creio que não.

Alguém instituiu "normalidade" como sinônimo de "padronização". Como padronização é um termo cada vez mais carregado de carga pejorativa, o que todos querem é fugir disto. Então acontece uma verdadeira "caça à doença", isto é, procurar qualquer ínfima diferença que os isole da massa. Acontece que sempre vai existir uma diferença. E isto é o que há de mais comum.

É lógico que eu sou contra o preconceito com os doentes mentais. Acontece que o que está ocorrendo é a perfeita banalização destas doenças. Ora, se todo o mundo se declara "meio esquizofrênico", será que um esquizofrênico verdadeiro vai procurar se tratar - e levar a sério este tratamento? Ou pior: será que não demora muito até o sistema de saúde estar abarrotado de pseudo-transtornados (que podem ocupar os lugares de quem realmente precisa)?

Que modinha de anormalidade é essa? Não há nada mais comum do que ter certas atitudes que fujam do que você acha que é "o padrão". Oh, meus amigos: somos perfeitamente normais. Espetáculos da lucidez. Absolutamente sãos.


Graças a Deus.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Descoberta




"Ninguém se apaixona por ninguém. O que as pessoas sentem é encanto pelo que são quando estão em determinada companhia."
Laila Natal
.
.
Pintura: Narciso, de Caravaggio

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um banquinho na caverna

Eu, Laila Natal Miguel, a moça do Banquinho, por meio da presente deixo registrada a minha sincera indignação com o novo sistema de vestibular que está em votação. Primeiro porque se a intenção era facilitar a vida dos estudantes, estes deveriam ter sido consultados antes que qualquer decisão fosse tomada, já que são os principais interessados. Segundo porque se o infeliz aluno não tiver nota satisfatória em uma única prova, perde a chance de concorrer a cinco universidades e está muito sujeito a ter sua vaga preenchida por um concorrente de um Estado distante. Além do mais, os ilustres prestadores de vestibular que não possuem acesso domiciliar à internet correm o risco de terem suas vagas covardemente roubadas por gente que ficará plantado dia e noite em frente ao computador se transferindo para onde lhes aprouver.
Mais uma vez uma decisão de peso é tomada sem consultar os beneficiados e prejudicados, de modo completamente precipitado assim como foram as cotas.
Os senhores leitores sabiam que aluno quer dizer "sem luz"? (A=negação, luno= luz). Mais alienados e mais às escuras que nunca (ou alienados e às escuras como sempre?) nos sentamos para acompanhar a decisão que decidirá nosso futuro próximo (Outubro!!).
Bem vindos à caverna. Vamos sentar e assistir. Vou pegar um banquinho.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Alimento


Os segundos são o alpiste do tempo.