quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Das profundezas

Primeiro, confesso. Confesso que desde que entrei de férias deixei este blog à deriva, navegando quase sem leme e sem capitã por semanas a fio. Confesso que tenho me dedicado mais aos assuntos mundanos e às leituras "miojo" (ver Livro "miojo", livro "macarronada") do que era aconselhável.
Confesso também que me apaixonei. E descobri que essa história de que o amor é inspirador deve ser para talentos superiores, para almas mais elevadas. Para mim não funcionou. Nunca amei tanto e escrevi tão pouco.
Admito que nas férias me dediquei ao trabalho (não, não teve moleza!), aos amigos, à família e até à cozinha! (sim, à cozinha, e obtive notável progresso).
Confesso até que achei que já era aniversário de 2 anos do blog, e que descobri hoje que é só mês que vem. Mas agora já era. A postagem está feita. Peço desculpas pelas teias de aranha e volto. E quero convidá-los a continuarem sentados aqui comigo, neste Banquinho "dois ponto zero", regido por mim agora também "dois ponto zero".
Chega de férias. Retomo o leme e começo de novo aqui.
Até a próxima!

terça-feira, 6 de julho de 2010

"Aí, viu?"

Em tempos de copa do mundo, uma situação que existe o ano inteiro - todos os anos - fica ainda mais evidente: até o homem mais contrário aos preconceitos de todo tipo se rende ao machismo diante de 22 homens disputando uma bola.
Eu gosto de futebol. Gosto bastante, até. Assisto aos domingos, vejo as notícias quase diariamente e sei o suficiente para opinar quando está impedido ou não está impedido. Acontece que quando declaro que assisto aos jogos da copa por motivo diverso às coxas dos jogadores, recebo dois tipos de olhares: de descrença ou de desafio. O segundo vem invariavelmente acompanhado de uma pergunta. "Ah é, então escala a seleção aí".
Acontece que eu não sei a escalação da seleção brasileira. Sempre me esqueço dos dois laterais. "Aí, viu?".
Paradoxalmente, eu acredito que a maioria dos homens do meu convívio também não saibam a escalação completa. Para alguns cheguei até a perguntar e confirmei. Só que homem nenhum precisa comprovar conhecimento técnico para assistir ao jogo em paz. Ninguém pergunta para um homem se ele sabe todos os nomes dos jogadores de seu país (fora os reservas!) quando ele diz que o técnico deveria fazer determinada subsituição. Não, para eles o futebol é inócuo.
Acho que tem um padrão nacional futebolístico segundo o qual só é reconhecida a vontade da mulher de prestar atenção no jogo quando ela apresenta pós-doutorado em futebol. E mesmo assim, ainda ficam com a pulga atrás da orelha.
E digo mais: quem reforça este tipo de comportamento são as próprias mulheres. Se aparece uma mulher (ou grupo delas) na televisão ou em qualquer lugar para falar da copa, só o que se pergunta e se fala é da beleza e do físico dos jogadores. E todo mundo fica bobo de ver e até bate palminha se alguma sabe, sei lá, o que é um escanteio.
Se continuarmos nos comportando como crianças pouco inteligentes, vai ser difícil sermos tratadas de outra forma, e aí não falo só de futebol.
Voltando à escalação, eu não tenho dúvidas de que poderia decorá-la. Passei no vestibular e no Enem com muita decoreba, diga o governo o que quiser a respeito. Só que, decorando ou não decorando, eu teria de continuar lidando com esse ciclo interminável de perguntas de futebol que existem, e numa delas (como aconteceria com qualquer ser humano, independentemente do sexo) acabaria tropeçando.

"Aí, viu?".

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Alheio

Vaguei livros inteiros atrás de um verso
Um verso! E achei.
E ele entrou-me pela garganta
encheu meus pulmões
molhou meus olhos
estourou meus tímpanos.

Emergi de coração batendo,
bombeando uma dor que não era minha.

sábado, 17 de abril de 2010

Lirismo

O lirismo é para mim como que um amor platônico. Acho-o lindo, belíssimo, quando o vejo passar nos trajes vistosos de um poema do Álvares de Azevedo ou do Vinícius. Acho-o atraente quando anda discreto, como quem não quer nada, em algum quarteto do Quintana. Gosto dele até quando rude e seco no sertão de Graciliano Ramos.
Flerto com o lirismo, admiro-o quando o vejo. Se acaso me dirige a palavra fico sem ar, suspiro profundamente, nunca sei o que dizer, só fico lá, abobada, olhando. Se vem tuberculoso e insano junto com Augusto, quero curá-lo. Se vem desiludido dos amores e da vida, ofereço consolo.
Mas só que o lirismo não liga pra mim.
Não importa quanto tempo eu dedique chamando, ele nunca dá o ar da graça. Recito poemas, leio prosa, ouço boa música, mas ele não vem a mim, não sei porquê. Vejo que outras pessoas - até alguns amigos meus! - convivem e escrevem com ele na maior naturalidade, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Que inveja!
E eu também tenho medo. Temo que se eu for atrás dele, pegá-lo à força, trazê-lo para mim, ele não será autêntico. Tenho medo de que o lirismo seja falso, de que seja superficial, forçado, namorador, político, raquítico, sifilítico. Morro de medo! E o maior de todos: medo de não estar à sua altura.
Acho que o que eu preciso é me desiludir do lirismo: tomar consciência de que ele não vai querer saber de mim tão cedo, me conformar e continuar vivendo e escrevendo sem ele. Vou deixá-lo para almas mais competentes.
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Estou contigo, Bandeira!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Acho que foi porque a tv ficou ligada

Não sou lá muito a favor de postar vídeos no blog, primeiro porque não sei editar e tenho certeza de que nunca conseguiria produzir um, segundo porque para ver vídeos o caro leitor dispõe do youtube para assistir aos que bem entender. Também já sei que tem muito tempo que eu não escrevo nada, mas esta música - em especial a parte da letra que está aí embaixo - diz mais ou menos tudo o que eu queria. Vale a pena ouvir junto.

Faz muito tempo que eu não escrevo nada,
Acho que foi porque a TV ficou ligada
Me esqueci que devo achar uma saída
E usar palavras pra mudar a sua vida.

Quero fazer uma canção mais delicada,
Sem criticar, sem agredir, sem dar pancada,
Mas não consigo concordar com esse sistema
E quero abrir sua cabeça pro meu tema

Que fique claro, a juventude não tem culpa.
É o eletronic fundindo a sua cuca.
Eu também gosto de dançar o pancadão,
Mas é saudável te dar outra opção.

Os meus heróis estão calados nessa hora,
Pois já fizeram e escreveram a sua história.
Devagarinho vou achando meu espaço
Mas não me esqueço das riquezas do passado.

Eu quero "a benção" de Vinícius de Morais,
O Belchior cantando "como nossos pais",
E "se eu quiser falar com..." Gil sobre o Flamengo,
"O que será" que o nosso Chico tá escrevendo.

Aquelas "rosas" já "não falam" de Cartola
E do Cazuza "te pegando na escola".
To com saudades de Jobim com seu piano,
Do Fábio Jr. Com seus "20 e poucos anos".

Se o Renato teve seu "tempo perdido",
O Rei Roberto "outra vez" o mais querido.
A "agonia" do Oswaldo Montenegro
Ao ver que a porta já não tem mais nem segredos.

Ter tido a "sorte" de escutar o Taiguara
E "Madalena" de Ivan Lins, beleza rara.
Ver a "morena tropicana" do Alceu,
Marisa Monte me dizendo "beija eu"

O Zé Rodrigues em sua "casa no campo"
Levou Geraldo pra cantar no "dia branco".
No "chão de giz" do Zé Ramalho eu escrevi
Eu vi Lulu, Benjor, Tim Maia e Rita Lee.

Pedir ao Beto um novo "sol de primavera",
Ver o Toquinho retocando a "aquarela",
Ouvir o Milton "lá no clube da esquina"
Cantando ao lado da rainha Elis Regina.

Quero "sem lenço e documento" o Caetano
O Djavan mostrando a cor do oceano.
Vou "caminhando e cantando" com o Vandré
E a outra vida, Gonzaguinha, "o que é?"

http://www.youtube.com/watch?v=7oXis0HZPz0

quinta-feira, 11 de março de 2010

Inveja

Guerra, sexo, esporte
- me dás tudo, tudo.
Vou pregar minha porta:
já não preciso do mundo.
José Paulo Paes

Quando li esses versos do José Paulo Paes pela primeira vez - assim mesmo, só esse pedaço, sem o resto do poema - fiquei absolutamente maravilhada. Agora, já me parecem comuns, reles, mas naquele momento foi quase um êxtase. Qual soneto de fidelidade, antíteses camonianas! Era a declaração de amor perfeita.
Sempre tive admiração e grande respeito pelos monges e demais penitentes que se dispunham a viver fora do mundo para se dedicarem exclusivamente à oração ou meditação. Para mim, só uma fé colossal e um amor tão grande quanto poderiam fazer alguém abandonar a vivência da carne. E - também opinião pessoal - essa fé e esse amor tão grande dispõem de uma só fonte: Deus.
E então me deparei com esses versos, em que o autor dizia simplesmente não precisar do mundo. Tratando-se de um homem, supus que a criatura iluminada que o havia inspirado era uma mulher, e não pude evitar sentir aquela pontada dolorida de inveja que eu costumo ter das musas dos grandes poetas. O fato de renunciar à vida secular por qualquer motivo não religioso era para mim a expressão do sentimento mais forte, da paixão mais apaixonada que alguém poderia ter.
Foi aí que resolvi procurar o restante do poema. E encontrei. Os queridos leitores sabem o título dele? "À televisão". Exato. Aquela devoção toda a um eletrodoméstico. Primeiro, desilusão devastadora. Depois, cheguei a sorrir com desdém, pensando na companheira do poeta. Coitada, mas que rival foi arranjar! Minha inveja esgotou-se de todo.
Meu desdém também durou pouco. Logo me peguei pensando que a sedutora tevê não existia apenas na cidade do poeta, mas também no mundo inteiro. A rival universal. E por sinal, já vitoriosa: sou física e intelectualmente incapaz de prover tudo o que uma televisão oferece. Aliás, não só eu: qualquer uma.
Acho que mudei meu conceito de amor colossal.

Aqui está o link do poema completo, para vosso deleite:http://www.imaginariopoetico.com.br/2009/06/televisao-jose-paulo-paes.html
E um ps.: Desculpem-me pelo abandono digno de teias de aranha em que deixei este blog nas últimas semanas. Foi por uma causa justa: mudei de cidade para entrar na faculdade (sim, oh! a faculdade!) e saí da faculdade e voltei para minha cidade, de onde sairei novamente para entrar em outra faculdade daqui a algumas semanas (nessa eu pretendo ficar). Por favor, não me abandonem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Oferenda

Ela nunca tinha sido muito afeita a filosofias, mas diante daquela explosão de apelo visual não resistiu, parou e foi admirar e refletir.
Era, de fato, uma beleza.
Alegre, festivo, uma profusão de formas esculturais, quase arquitetônicas, que se erguiam e curvavam em direções diversas. Tudo era colorido e sinuoso. Que ostentação de luxo!
Tudo que era relativo à reprodução da espécie, ao invés de coberto, oculto, era ali exibido com orgulho.
Efêmero, sem dúvida. Não duraria mais que cinco dias. Mas, durante aquele curto tempo, seria como uma oferenda à potestade dos sentidos, a visão.
Primeiro, ela pensou que aquela beleza toda só poderia ser divina. Depois, perdida nas suas divagações, concluiu que aquele excesso sensorial não poderia ser etéreo: era carnal demais.
Isto é, se fosse carne, se fosse humano.
"Mas que belo arranjo", pensou.
Ajeitou a jarra de flores para um ângulo mais favorável na mesa e foi atender ao telefone.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Desejo

Porque tem hora em que a mente fica tão mundana,
que o coração só quer bater poesia
como um alcoólatra bebe cachaça,
como um faminto vai para a mesa.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A roda viva da redação escolar

Não sei se fui a única a achar o tema da redação do Enem meio irônico. De fato é muito esquisito uma prova que já foi fraudada pedir "o indivíduo frente à ética nacional" como proposta. Mas até aí era uma só. Hoje fui abrir a prova da segunda fase da Uerj e estava lá "dê sua opinião sobre a cultura de transgressão das leis".
Hmmm... interessante.
Agora de repente parece que alguém está querendo promover a moralização dos vestibulandos através de composições escritas. Não deixa de ser um bom projeto, mas, sinceramente, o que será que estão querendo com isso? Com certeza não é para colher nossa preciosa opinião a respeito, porque eu quero ver quem é que conseguiria fazer caber "as informações contidas nos textos da proposta, os conhecimentos adquiridos na sua formação e suas reflexões pessoais" em 5 parágrafos somando 29 linhas (porque uma é do título) com introdução, desenvolvimento e conclusão sem fugir do tema. Em uma hora.
Não vou dar uma de rebelde sem causa aqui: as dissertações são importantes e têm valor como textos argumentativos que são. E mais ainda: vestibulares sem redação perdem muito de sua credibilidade. Mas a verdade é que pedir para o aluno colocar seus valores, seus conceitos de ética (ou da falta dela) no papel e daí atribuir nota de 0 a 10 para isso, não sei não, mas para mim já é abuso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Corcundas


"Nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é só bunda"
Rita Lee

Quer saber? Eu acho que o debate sobre o conceito de dignidade feminina transcende em muito os vestidinhos. Transformaram a moça da Uniban numa semi-mártir do movimento feminista. Ora, façam-me o favor! Que história é essa de ela simbolizar a "nossa luta" ou "nossos direitos"? Nossos quem, cara pálida? Se a luta do movimento feminista hoje é pelo "direito" de usar nanovestidos, eu estou fora.

A atitude dos estudantes da universidade bandeirantes foi sem dúvida absurda. Vai dizer que eles nunca viram uma mulher com menos roupa ainda? Agora, daí a transformar a moça que em entrevista disse que o que queria era "ficar gostosa" em heroína é outra história.

Não me entendam mal. Todo mundo deve vestir o que bem entende, até porque o tempo do Jânio já passou e (que eu saiba) não tem nenhuma lei regulamentando o comprimento de vestidos em faculdades nem em lugar algum. Cada um sabe quantos centímetros de pano mede o seu respeito.

De fato, o "calor dos trópicos" (argumento mais usado pelos defensores das nanovestimentas) torna impraticável sair de casa de calça comprida no verão. Porém, o bom senso também mandou lembranças e as pessoas têm consciência de que não se pode trabalhar de biquíni nem sunga e que fica mal para um profissional chegar no serviço de shortinho e chinelo se você não trabalha de ambulante na praia.

O fato é que esse debate me parece muito mais machista que feminista. Afinal, mesmo no tal "calor dos trópicos" ninguém nunca fez um escarcéu desses para defender a ida de homens descamisados às faculdades.

E o mais aleatório de tudo foram os estudantes da UNB querendo atestar toda a sua superioridade cultural em relação aos da Uniban aparecendo nus em protesto.
Deviam oferecer uma vaga para a Geisy Arruda lá.
Ela também vai tirar a roupa.
Só que, diferentemente deles, ela vai ganhar para isso.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Falando difícil 2 - O vocabulário e o sentimento


Diferentemente da articulação do pensamento, o sentimento não precisa de vocabulário amplo para se manifestar. Pelo menos não um tipo: o sentimento "concreto". Estranho, não?

Como provavelmente a maioria vai lembrar, todo mundo classifica qualquer sentimento como "substantivo comum abstrato simples ou composto". A tia da 4ª série vai ficar orgulhosa. E além do mais está certíssimo. Mas tirando a classe gramatical e pensando somente nos sentimentos mesmo, eles poderiam ser classificados em dois tipos: o abstrato (ou descritivo) e o concreto.
Sem chavões, ok? Todo mundo sabe que a função do coração é bombear sangue e que a gente sente é com o cérebro mesmo. Como o que vem do cérebro é pensamento, o silogismo de que os sentimentos são um tipo de pensamento parece bem aceitável. Certo. Mas será que uma pessoa de grande bagagem lexical sente do mesmo jeito que uma que se restringe a uma simples frasqueira de vocabulário?

Aí é que está. O sentimento "concreto" é o que se materializa a partir de ações concretas. Recorrendo (como de costume) à literatura, temos que o Fabiano de Vidas Secas, por exemplo, tem um vocabulário pífio. Porém, possui uma sentimentalidade complexa. Seus sentimentos são baseados em coisas palpáveis. A admiração que ele tem por Sinhá Vitória é clara, mas em momento algum ele ou o autor citam esta palavra ou qualquer outro sinônimo. Fabiano admira sua mulher porque ela sabe fazer contas, "tem miolo" e é bonita. E isso tudo é bom. Ele gosta dela por esses e infinitos outros motivos, todos eles concretos. Tampouco o sertanejo de Graciliano Ramos expressa oralmente seu agrado. Suas manifestações são tembém concretas, ainda que mentais. Ficou complicado. São concretas porque todas teriam uma materialização possível, aconteça ela ou não. Por exemplo, recompensar a beleza da esposa (que ele vê) com uma roupa encarnada ou uma saia de ramagens (que existem).

Agora, quanto mais uma vocabulário uma pessoa adquire, com mais detalhamento pode descrever seus sentimentos (para si ou para os outros). Daí vêm os sentimentos descritivos, isto é, que são sentidos da mesma maneira, mas por serem decompostos e analisados ficam cada vez mais abstratos, e por consequência mais próximos da razão e mais distantes do instinto. O sentimento descritivo nem precisa ser exclusivo da pessoa: por exemplo, alguém que nunca foi traído pode ter noção da angústia (embora não senti-la por completo) ao ler Dom Casmurro. Várias situações que o indivíduo não viveu podem ser virtualmente sentidas ao ler uma descrição bem feita.

Portanto, o sentimento concreto é completamente independente do vocabulário, enquanto o abstrato torna-se mais e mais desenvolvido na mesma proporção que este, ficando - embora menos intenso que o concreto - mais amplo e mais compreensível.


"(...)Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam."

Cap XII, O Mundo Coberto de Penas, Vidas Secas, Graciliano Ramos.

sábado, 31 de outubro de 2009

Falando difícil - O vocabulário e o pensamento


"O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita"
João Guimarães Rosa

Um vocabulário vasto não implica necessariamente em um pensamento vasto, porém um pensamento amplo exige um vocabulário amplo. Por vocabulário aqui entende-se o seu sentido mais simples: número de palavras conhecidas. De forma resumida, quanto mais verbetes se conhece, mais "coisas" se pode nomear e relacionar.

Provavelmente alguém já está pensando que, se determinado indivíduo conhece os objetos e os sentimentos, pode saber relacioná-los sem precisar conhecer seus nomes. Pode até ser, mas o limite do pensamento vai muito além do que se vê e do que se sente. Afinal, como explicar a uma pessoa o que é "direito" ou o que é "literatura" sem utilizar palavras?

Além do vocabulário, para articular um pensamento é preciso também um mínimo de gramática. Afinal, uma palavra só se encaixa na outra quando vem aquele batalhão de conjunções, apostos, objetos, etc. Gramática não para tolhir, mas para dar fluidez ao pensamento, para conectar, para tornar coeso.

Nos últimos tempos tem feito muito sucesso a teoria das "múltiplas inteligências". Só que grande parte dessas são "múltiplos instintos", como por exemplo a tão citada "inteligência futebolística" de Garrincha. Inteligência para mim é capacidade de formular pensamento próprio. Todo mundo nasce com a mesma inteligência, só que nem todos procuram ou têm condições de desenvolvê-la.

Como disse o mestre Guimarães Rosa, o homem nasceu para aprender. E quanto mais aprende, mais pode aprender, mais pode pensar. Quanto mais conhecimento se tem, mais conhecimento se produz, e é assim que a gente evolui. O autor da frase lá em cima, por exemplo, chegou ao ponto em que aprendeu tanto que para seu pensamento não bastava o vocabulário existente: ele precisava criar mais palavras para se expressar. Fica um trechinho dele pra remoer:


"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: pra pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém."

João Guimarães Rosa
Grande Sertão - Veredas

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Falando difícil


"Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento."
Ludwig Wittgenstein

Desde que li A Trilogia de Nova York, do Paul Auster, fiquei com um pensamento na cabeça: até que ponto o domínio da linguagem - ou a falta dele - interefere na mente, no comportamento e nas relações humanas. Há uns dois ou três anos eu tenho pensado nisso, e vira e mexe encontro algum texto falando sobre o assunto.
Semana passada terminei o Vidas Secas, do Graciliano Ramos, que não trata da articulação da língua, mas da vida sertaneja. Só que, no meio do sertão, Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos são como magistrais exemplos do impacto que causa a falta de vocabulário no pensar e nas atitudes.
Para completar, no vestibular simulado do Pitágoras o texto que abria a prova de português era justamente um artigo do Cláudio Moreira de Castro (Os meninos-lobo, Veja, 08 de julho de 2009) a respeito das crianças que nasceram isoladas sem oportunidade de aprender a falar. Foi o empurrão que faltava.
A discussão deu tanto pano pra manga que eu resolvi fazer não um texto, mas uma série (até agora penso em três textos, mas acho que dá para diminuir ou aumentar dependendo das ideias) sobre o "falar difícil".
Espero que gostem!

domingo, 18 de outubro de 2009

O tal do verbivocovisual

A razão humaniza o homem, mas o que o eterniza é o sentimento. Na vida eu não sei, mas na arte é assim que me parece ser. A matéria de Literatura bimestre passado foi a poesia concreta, e não posso negar que ela realmente é diferente de tudo o que já vi antes. Palavras estranhas, coloridas, de diferentes tamanhos, espalhadas na página, às vezes até a ausência delas. Se faz pensar? Sem dúvida.

Um dia minha mestra falou que a gente pode até não gostar de determinado autor ou poema, mas o que mostra se o tal poeta tem qualidade ou não é o estranhamento que ele causa em nós. O que não pode é passar indiferente. Não posso dizer que a poesia concreta passou despercebida por mim - muito pelo contrário, achei até bem esquisita - mas nada me tira da cabeça que toda aquela rebeldia contra a forma, a cor, as fontes estranhas, não têm outra função senão disfarçar um vazio imenso, gigantesco, colossal de conteúdo e alma.

Os parnasianos foram o contrário: fizeram uma escultura maravilhosa de palavras, digna de um templo grego: a forma perfeita, a métrica exata, a rima, os versos trabalhados num poema oco. O mesmo vazio de conteúdo e alma. Talvez por isso até hoje todo mundo olhe o movimento parnasiano com certa antipatia. Quem geralmente se salva é o Bilac, justamente porque tratou dos sentimentos. Com aquele jeitão, em cima de um pedestal de mármore, não importa. Os sentimentos dele são os mesmos de qualquer plebeu.

A razão nos individualiza: é ela que nos dá a graça de sermos diferentes uns dos outros. Ela nos humaniza e nos torna grandes, significativos e poderosos.
O sentimento aproxima, coletiviza. Ele é igual. E justamente por isso eterniza determinada arte, pois o cidadão vê seu sentimento no poema, do jeitinho que ele sente: só precisava de um ser iluminado - o poeta - para transcrevê-lo.

O apego demasiado à forma - seja à perfeição ou à completa disgressão dela - é disfarce. A métrica é boa, a rima é boa, quando servem para enriquecer o conteúdo do poema, o sentimento do poema. O que não pode é deixar a alma em segundo plano para caber num verso decassílabo ou redondilho.

Até porque coca-cloaca do Décio Pignatari e o crisantempo do Haroldo de Campos são uma beleza, mas nunca vão ter a sustância da terra de um João Cabral de Melo Neto, a doce ironia das ruas de um Mário Quintana ou o pulsar desesperado do coração de um Álvares de Azevedo.


Para quem ficou curioso
http://www.poesiaconcreta.com.br/

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Crianças desaparecidas

Na segunda feira muitas crianças receberam presentes e abraços. Houve sorrisos, papel brilhante, cartões alegres. Muitas, não todas. Algumas crianças não: as crianças desaparecidas.
Essas crianças se contentaram com um sorriso indulgente, e talvez assistiram escondidas a algum desenho animado ou cantaram músicas da Xuxa no banho. Elas já sumiram há um bom tempo. A maioria dos pais já se desiludiu e parou de procurá-las e a quase unanimidade deles sente saudades.
Muitas delas sentem falta de casa, e algumas chegam a lembrar dos bons tempos passados com uma boa dose de lágrimas. Essas crianças trabalham ou estudam ou fazem as duas coisas. Talvez quem mais as procure sejam elas próprias. Muitas vezes elas só querem um colo quentinho ou um bolo de chocolate assando no forno.
As crianças desaparecidas somos nós.
As crianças que fomos não morreram: elas sumiram. Elas existem. Estão em algum lugar, brincando de Barbie ou jogando bolinha de gude.
Procura-se.
Procura-te.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Soprando velinhas


É com orgulho e vergonha que eu venho anunciar o aniversário do Banquinho! Orgulho porque quando eu criei este blog eu nunca imaginei que ele duraria tanto, e também porque me sinto muito realizada escrevendo aqui e principalmente vendo que algumas pessoas parecem realmente gostar dos meus posts e vêm sempre sentar para me escutar. Já a vergonha é porque na verdade o blog fez um ano há mais ou menos uma semana, e eu vergonhosamente me esqueci da data. Mas isso pode ser superado (eu acho).

Então eu decidi fazer um post especial, no qual eu pretendo fazer o que sempre faço aqui: abrir meu coraçãozinho para vocês, queridos leitores. Só que desta vez não é sobre política, nem vestibular, nem literatura, nem filosofia, nem música: é sobre mim e o blog mesmo. E, naturalmente, sobre vocês também.

Há um ano e uma semana, uma menina do segundo ano do ensino médio resolveu criar um blog para ter uma desculpa para escrever tudo o que pensava. Não, não vou contar a história em terceira pessoa porque isso é ridículo. É que a gente muda e não sei o quanto eu ainda sou a mesma. Relendo os posts do ano passado eu vi o quanto passei a escrever diferente -e, por extensão, pensar diferente- neste tempo. O Banquinho veio crescendo junto comigo.

Vou aproveitar a ocasião e explicar por que diabos o blog tem este nome. Tudo começou numa feira de cultura do meu colégio quando eu estava na oitava série. Cada aluno ou grupo de alunos faz um trabalho e apresenta, e o meu trabalho foi... um banquinho. Todo mundo chegando com suas cartolinas, maquetes, experiências e tudo o mais e eu carregando um banquinho. Pequenininho, desses de apoiar os pés. Tinha uma mesa com vários livros de poesia e do lado dela eu coloquei o banquinho e esperei. As pessoas foram chegando e eu pedia para elas subirem no banquinho e declamarem um poema, ainda que fossem apenas alguns versos. E foi um sucesso maior do que eu esperava! As pessoas olhavam, desconfiadas, se faziam de rogadas e depois subiam e liam e falavam. Depois desse trabalho, quando eu saía na rua as pessoas diziam "olha lá a menina do banquinho!" e fiquei sendo isso aí mesmo.

Manter um blog é um desafio. No post "humildade" aí embaixo eu tentei explicar que escrever não é mole. Só que é extremamente gratificante. Eu me lembro do primeiro comentário, que foi de uma pessoa que eu nem conhecia! E depois outros comentários, de outros desconhecidos, tudo tão emocionante! Só bem, bem depois foi que os meus amigos foram descobrir o blog, e pouquíssimos chegaram a comentar aqui (as colegas Dora, que virou blogueira também, e Isabela). E os desconhecidos viraram amigos, tanto os que também eram blogueiros, como o Sanger, o Fábio, a Antônia, o Orochi, a Marina, o Márcio e vários outros, quanto os não blogueiros, como a Ana (a primeira comentarista), o Rafael mais alguns.

Comecei com o blog sozinha, pensando "o que vier é lucro". E o lucro foi grande. Hoje o Banquinho tem 14 seguidores (!!!), fiz bons amigos e ainda ganhei, se não a admiração, pelo menos o respeito, de várias pessoas. Nem sei se realmente mereci isso tudo, mas se hoje estou postando neste blog há 1 ano, é pelo menos 90% graças a vocês, que são os melhores, mais educados e mais cultos leitores da blogosfera (e eu acho isso de verdade!). 10% são meus, porque o blog não se atualiza sozinho, né?

Vocês fizeram o Banquinho crescer e fizeram de mim uma vestibulanda menos neurótica, e digo até uma pessoa melhor.

Vocês são o máximo! Muito obrigada!

domingo, 20 de setembro de 2009

Augusto e eu

Quando eu conheci Augusto (e isso tem uns 4 anos), eu, de cara, já não simpatizei com ele. Hipocondríaco, bebia muito, fumava mais ainda e falava o tempo todo de morte, de vermes, desgraças em geral. Lembro-me de dizer a muitas pessoas "que cara negativista, não gosto dele, não" e até de desviar os olhos se por acaso o visse. Juro que se ele não fosse tão velho, eu diria que ele tinha umas tendências a emo.

O tempo passou e eu parei de desviar os olhos e passei a ouvir o que ele tinha a dizer. Do quanto a vida é curta, a dor é grande e os amores são cruéis. E inicialmente eu discordei de tudo. Depois, só bem depois, foi que eu vi que não precisava concordar ou não com ele: era simplesmente uma questão de reconhecer que aquela era a verdade dele e respeitá-la.

Foi aí que eu vi que Augusto mexia comigo mais do que qualquer outro. Depois das palavras dele, eu pensava por muitas horas, e várias vezes chorei. E vi o quanto a verdade dele podia ser tão verdadeira às vezes.

Alguns dizem até gostar de Augusto, mas que ele é boa companhia somente nas horas de tristeza ou desespero. Eu já acho justamente o contrário: só se deve procurá-lo nos dias de sol, quando se está absolutamente bem resolvido com a vida e os amores. Primeiro porque, apesar de compreensivo, ele não é muito consolador e apresenta algumas ideias suicidas. Segundo porque ele sempre oferece bebida e cigarros nessas ocasiões, e eu não aprecio nenhuma das duas coisas.

Então, caro leitor, no seu dia de sol quando for encontrar Augusto, é muito provável que ele diga todas as coisas de sempre. E quando ele disser que a felicidade não existe você vai sorrir, apontando para si e dizendo "existe sim, olhe aqui" e ele vai balançar a cabeça descrente e acender um cigarro. Você vai voltar para sua vida e seus amores muito mais ciente da real existência deles e vai pensar "Augusto, seu tolinho, você não sabe o que está perdendo".
Não, ele não sabe. Mas graças a ele você sabe o que está ganhando.

Augusto.
Dos Anjos.
Poeta naturalista.
Nascido em 1884.


Para quem não teve a honra de conhecê-lo ainda: http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp
http://www.jornaldepoesia.jor.br/augusto03.html

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Blog Day 2009


Ladies and gentleman, this is blog day 2009!! Este dia é dedicado para blogueiros all over the world conhecerem e divulgarem blogs alheios, para uma maior interação na blogosfera.
As regras são as seguintes: cada um deve indicar em seu blog cinco blogs alheios, de preferência que tratem de assuntos e culturas diferentes da sua.
Vou postar aqui então alguns blogs que visito sempre e que acho excelentes, cada um dentro da sua área específica.

Começarei com um blog projeto: o Livro sem Fronteiras, escrito pelo Fernando Monção, que tem o plano de transformar Valença na Cidade da Leitura. Não preciso nem dizer que apóio completamente.

O próximo contemplado é sobre entretenimento em geral temperado com muita cultura otaku: o Chamando o Coringa, do Marcus Orochi.

Apesar de ser muito suspeita para indicar este blog, faço-o mesmo assim e recomendo o Lamento de um Blue, da colega Dora, que fala de forma muito profunda de boa música, literatura e pensamentos em geral.

Consta também o D. Quixote em Valença, blog do Sanger, que apesar da tendência política oposta à minha discorre brilhantemente sobre os acontecimentos populares de Valença, do Brasil e também dos particulares.

Agora cito o Comuna Virabossa, que tem textos inteligentes e muito bem escritos sobre música e História, além da "cultura e contracultura" mantido pelos irmãos Virabossa.
Estão aí, todos devidamente aprovados pela moça do Banquinho, prontos para serem lidos pelos senhores. Façam bom proveito!

sábado, 22 de agosto de 2009

"Pega a faca e mata!"

Outro dia me deparei com o álbum mais ferrenhamente vegetariano que já vi. 95 fotos de pura militância anticarnívora. Quando cheguei à 40ª foto, já estava considerando a hipótese de me tornar herbívora até que ouvi o chamado de "quem quer hambúrguer!?" e fim da história.

Neste meu curto tempo de vida até agora já ouvi absurdos como "eu não como carne, só como picanha" e "eu sou vegetariana, mas como nuggets". Claro que isso dá o que pensar. As pessoas não comem carne por diversos motivos, algumas por gosto, outras pelo peso e muitas por filosofia de vida. Gosto e peso são problemas muito pessoais, então vamos à filosofia.

É comum ouvir grandes dissertações sobre as emissões de metano causadas pelas criações de gado mundo afora. Acontece que os aterros sanitários, onde é depositada a maior parte do lixo orgânico mundial, emitem muito mais metano. E o lixo orgânico, além de restos de carne, inclui também saudáveis e puros restos e cascas de vegetais e frutas. Ainda sobre o monstruoso aquecimento global, é importante dizer que os adorados computadores em que os respeitáveis vegetarianos divulgam suas idéias verdes são produzidos em sua maioria por empresas de capital norte-americano, sendo que os EUA nem assinaram o protocolo de Kyoto.

Outro argumento muito comum é a crueldade com os animais, e é aí que eu chego ao verdadeiro assunto do texto: a crueldade. A crueldade está cada vez mais cruel. Se hoje eu digo que não dispenso um bom churrasco, que o queijo não é a mesma coisa sem o presunto e que não tem palmito que substitua um molho à bolonhesa tem gente pronta para me chamar de assassina. Porém, muitos fecham os olhos para as crueldades cometidas nas touradas, nos rodeios, nos circos, nas rinhas de galo e nos reality shows que divertem todo o mundo.

Reality shows? É, eles mesmo. Afinal, o que poderia render mais Ibope que tortura humana, seja ela física ou psicológica? Que tipo de humanidade senta no sofá para assistir pessoas comendo olhos de cabra, embriões de pintinhos, peixes vivos e outros "alimentos"? Todos prontos para passar por cima dos seus escrúpulos, dos seus valores e dos seus limites para ganhar altas somas de dinheiro. E os filmes? As tropas de elite da vida? Tortura esgota bilheterias.
Crueldade.
E antes que venham com grandes discursos dizendo que a culpa é do capitalismo, que ele torna as pessoas selvagens, estejam os senhores leitores devidamente lembrados que as execuções públicas já eram atração há mais de 2 mil anos e que os combates entre cavaleiros divertiam a sociedade feudal.
A crueldade parece quase inerente. Se a humanidade não evoluiu a ponto de se tornar boa consigo própria, imagine tornar-se piedosa para com os animais. Antes defender a própria espécie! Se bem que, com essa crueldade toda, nem sei porque me dou ao trabalho.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Baú de Espantos e o PC

Se cada um de vós, ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão -
se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
faria uma verdadeira viagem...
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.
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Invitatión au voyage, Mário Quintana em Baú de Espantos.
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Quando Baú de Espantos foi publicado, em 1986, Quintana, os poetas e o mundo estavam preocupadíssimos com o quanto as pessoas renunciavam à "vida lá fora" em nome da televisão.
Pobre Quintana, pobres poetas, pobre mundo! Eles não esperavam pelo personal computer! Ou pelo menos não pelo sucesso que este faria. Nossos amados computadores agora são muito mais do que tvs: são também tvs e são livros e são rádios e são vitrolas, telefones, máquinas fotográficas, amigos e amores.
Bom ou ruim? Outros já falaram sobre isso mais e melhor que eu, então não vou perder meu tempo e o leitor também provavelmente já tem sua opinião formada.
Na verdade, me alongo à toa. Este poema é a minha desculpa. Tenho ficado muito tempo sem postar e fico me sentindo culpada. Mas é por nobre causa! É pela nobreza de um livro de poemas, de uma composição do Villa-Lobos e da companhia dos amigos.
Ó, leitor! Vá abrir um livro de poemas! Me sinto honrada com a sua companhia, mas não deixe seus poetas, seus músicos, seus amigos e amores para ficar no computador! Vá para eles! E quando estiver cansado ou tiver vontade, volte. Nos veremos de novo, ambos ainda mais repletos de poesia, de música, de amizade e amor.
Boa viagem.