terça-feira, 14 de junho de 2011

Medieval

A imagem que estão pintando da feminista hoje é solitária, amarga, feia, de cabelo desgrenhado, roupas estranhas e verruga no nariz.

Só falta um chapéu de bruxa.
E uma fogueira.





16 de junho
Ps.: Agora além do blog estou alimentando um tuíter. Quando tiverem um tempinho, passem por lá! http://twitter.com/#!/60sLaila
Até mais!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Grunhido

"Não tenho nenhum sentido político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a pagina mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse."
Fernando Pessoa.
Em: O livro do desassossego

Tomei a liberdade de postar o parágrafo do mestre Pessoa de acordo com a otrografia vigente no Brasil. Radicalismos à parte, muito me orgulha falar português. E mais ainda que seja essa minha língua nativa. Fico decepcionada, então, com o descaso com que tenho visto meu idioma ser tratado. Não falo do português mal escrito, que disso vou falar depois. O que estou vendo é um desprezo total não só pela forma de escrevê-lo, mas pela língua em si. Digo, pela ideia de falar português. É como se a língua portuguesa fosse um dialeto de segunda categoria, inferior aos idiomas das grandes potências, como o inglês ou o francês.
Encontrei recentemente uma professora que, encantada, dizia haver uma faculdade de Direito no Brasil em que os alunos liam apenas textos em inglês, espanhol e alemão até o quarto período, só começando a ler alguns em português a partir daí. Dizia isso argumentando que assim a faculdade preparava melhor seus alunos.
Vi também uma certa famosa justificando erros grotescos da filha, dizendo que a mesma tinha sido "alfabetizada em inglês". Não consigo ver outro motivo além do exibicionismo para alfabetizar em inglês uma criança que vai ouvir e falar português em sua casa, em sua escola, entre seus amigos e sua família. Parece justo que se fale um português pífio, desde que se tenha um inglês fluente e fale mais uma ou duas línguas.
Pelo menos para mim, é melhor saber um idioma decentemente que três de forma rasa. Já falei aqui minha opinião sobre o vocabulário e o pensamento. E o importante não é só pensar, é exprimir esse pensamento.
Quanto ao português escrito de forma não ortodoxa, minha humilde opinião é a seguinte: ele é aceitável quando falado por quem não teve a oportunidade de aprender a norma culta e em licenças poéticas. Fora isso, poder aprender e não querer fazê-lo é ignorância. E mais ainda é aprender e continuar falando e escrevendo da mesma forma que antes.
Já sobre a tão difundida "linguagem da internet" e seus axus, naums, kzas e afins só posso dizer o que Saramago já disse: "De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido".

Essa valorização da ignorância acaba por desvalorizar o que a língua tem de melhor. De tantas bandeiras erguidas contra os palavras rebuscadas, eis os clássicos renegados e tachados de "velhos, prolixos e distantes da realidade". Mais: qualquer um que escreva uma sentença mais longa ou use uma palavra diferente vira pedante, apelativo.
Me lembro de certas apostilas preparatórias para as redações de vestibular dizendo que a banca não via com bons olhos redações escritas "fora do padrão de vocabulário de um jovem". Me pergunto que espécie de padrão estão esperando.
A língua é viva sim. E passa pelas suas transformações no decorrer do tempo. É o amadurecer natural do idioma. Não dá é para reconhecer as doenças passageiras e as cirurgias plásticas radicais pelas quais ela vem passando como parte dessas "transformações naturais".
Assumo meu conservadorismo. Já podem atirar-me as pedras.

terça-feira, 8 de março de 2011

Espécie ainda envergonhada

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado


Uma coisa que está me incomodando são essas propagandas de remédio para cólicas menstruais que fazem parecer que a mulher vira um bicho uma vez por mês. Parece sem grandes consequências e até cômico, mas pense: quando um empregador tem que escolher entre dois profissionais igualmente capacitados, um homem e uma mulher, qual dos dois será que ele escolheria para ocupar um cargo? Uma funcionária que se apresenta absolutamente descontrolada e raivosa uma semana a cada quatro deve ser muito menos produtiva, certo? Mais triste ainda é a mulher que se aproveita da tpm como desculpa para seus dias ruins (que todo mundo tem). Dessa forma, ela reforça o estigma e ainda dá motivo para a colossal injustiça que é o fato de as mulheres ainda ganharem menos que os homens numa mesma função.

No dia da mulher, aparecem várias imagens de mulheres exercendo "profissões de homem": bombeiras, mecânicas, caminhoneiras, presidentes. E de repente parece que o mundo é das mulheres e todas as lutas foram ganhas. Ora, já temos direito de votar, podemos exercer "profissões masculinas", já temos até "presidenta"! Queremos mais o quê?

Só o fato de terem de mostrar as imagens dessas "guerreiras" já mostra que o preconceito existe e é grande. Ninguém mostra foto de homens que exercem "profissões femininas". E provavelmente achariam muitíssimo indelicado fazer propaganda de negros exercendo "profissões de branco" e vice-versa. Não é?

E tem mais! Será que as mulheres que "lutam pelos seus direitos" são só as que resolvem seguir um caminho profissional em que são minoria? Será que as donas-de-casa, professoras primárias, enfermeiras e manicures deste mundo são "mulherzinhas"? Conformadas?

Não infantilizemos o feminismo. O que as mulheres querem não é ser aprendizes de homens. Nós temos um gênero próprio! A verdadeira revolução passa pela escolha da profissão, mas não se restringe a ela. Pra ser mulher de verdade, não é preciso ser superexecutiva nem rainha de bateria. Os sutiãs já foram queimados e voltamos usá-los. A luta só acaba no dia em que não precisaremos mais carregar bandeiras (ainda que metafóricas). Aceitar e ser aceita. Simples assim: "Sou mulher". Reconhecer suas forças e fraquezas e lidar com elas. Natural como um nascimento, inevitável como a morte. Antes de sermos engenheiras, esteticistas, advogadas, cozinheiras, empregadas, freiras, motoristas, somos mulheres. Vamos cumprir a nossa sina.

Somente na hora em que a genuína essência do feminismo for compreendida e aceita, a mulher vai poder pilotar o que bem entender - sejam espaçonaves ou fogões - sem precisar armar cavalos de batalha nem empunhar bandeiras.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Carta a Cecília

Querida Cecília,
Pode parecer estranho que eu, viva, escreva para ti, morta; mas não é mais estranho do que tu, viva, escreveres para mim, que sequer cogitava nascer. Certo?
Não sou poeta, na verdade nunca fui, embora tenha gostado muito de achar que o era, quando mais nova. Digo, porém, que gosto imensamente de poesia, e isso se deve primeiramente a ti. Te conheci por acaso, aos oito anos, e não penses que foi por "ou isto ou aquilo" ou "leilão de jardim", não! O primeiro poema teu que li foi no jornal, e hoje infelizmente não me lembro mais do nome e nem de qualquer verso, mas era sobre uma dama que caminhava em direção à guilhotina ou à forca, enfim, à morte. Achei bonito, mas muito triste, e quando mais tarde tive de escolher um poema teu para decorar para o trabalho da escola, escolhi "ou isto ou aquilo", como todos os outros da minha sala.
Então, com esse poema belo e triste, entraste na minha vida e de lá nunca mais saíste. Minha madrinha me emprestou um livro teu, que foi o meu primeiro livro de poesia e que, naturalmente, nunca mais devolvi (não que ela tenha cobrado, é claro. Aliás, ficou até muito orgulhosa por eu ter gostado tanto).
Fiz, assim, minha primeira incursão pela poesia, e conheci meninas pintadas, cavalos mortos e rosas atiradas.
Chorei com tua "Elegia" e sorri com o ovo azul. E quando subi (literalmente) em um banquinho para homenagear minha mestra, foi "Aluna" que li.
Ah, Cecília, me acompanhaste a vida inteira.
Depois de ti, os outros poetas que conheci eram quase todos homens: Carlos, Vinícius, Mário, Manuel, Olavo, Augusto e os outros todos.
Além de ti conheci também Adélia, e com ela senti e aprendi muito.
Mas se a poesia hoje é para mim o que é, é graças a ti.
Acho que não poderia ter-me iniciado de maneira melhor. Se tivesse começado com outros poetas mais modernos, talvez não desse o devido valor à forma. Ou, se meu primeiro livro fosse de poemas menos profundos, talvez eu nunca tivesse tido real vontade de aprofundar-me. Ou, ainda, correria o risco de não ver na poesia a alma feminina que existe até nos escritos dos homens.
A poesia deu sentido à minha vida, e tu deste sentido à poesia desde sempre.

Eternamente grata,
Laila.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Roupas coloridas e disparates

De uns tempos pra cá, tenho visto um movimento revolucionário anti "gente colorida" que só faz crescer nas redes sociais. Eu, sinceramente, prefiro as cores neutras e tenho horror declarado às músicas das bandas desse tipo, mas não vejo sentido nessa revolta toda.
Comunidades como "por um mundo mais preto e branco" (!) me chamaram a atenção. Notei também que os maiores discordantes do que agora chamarei de movimento colorido são as pessoas que apreciam o rock.
Ora, quando o rock'n'roll lançou sua estética inovadora, com homens que usavam cabelos compridos, calças justinhas de couro e até salto alto, e tudo preto, muito preto, creio que deva ter causado um estranhamento até superior a esses bizarros tênis de cadarços fluorescentes. E o movimento hippie? Existe algo mais colorido?
No entanto, parece que as mentes de muitos jovens "roqueiros" (detesto essa expressão) envelheceram e se tornaram caretas, isso sim. Ora, revolução certa é só a sua?
Posso particularmente não gostar das roupas e músicas coloridas, mas acho totalmente plausível que surjam novos grupos de pessoas usando e ouvindo coisas diferentes. Qualquer movimento está sujeito à modinha. Socialites já se vestiram como punks quando a alta costura decidiu que isso era o "must" da época (e vira e mexe isso volta). Então, mesmo que haja gente se vestindo dessa maneira "só para aparecer", é legítimo. Afinal, a intenção é justamente aparecer mesmo, chamar a atenção.
Além do mais, esse movimento colorido tem como principais adeptos as crianças (para mim, meninos e meninas de 12 anos são crianças, sim!). Ora, não só é adequado, como também até recomendável, que crianças vistam-se de forma alegre e ouçam músicas sem muitos dramas além dos amores juvenis. Haverá muito tempo para as cores sóbrias e os grandes questionamentos sobre a própria personalidade e os rumos do mundo no futuro, pode acreditar. Eu própria cresci escutando a Xuxa e assistindo aos Ursinhos Carinhosos e hoje sou uma jovem em perfeito estado de sanidade mental.
Aliás, quanto a esses movimentos novos, tenho muito mais simpatia pelos "restartianos" da vida que pelos emos. Pelos menos os primeiros me parecem mais alegres e menos rebeldes sem causa. Muito mais condizente com sua idade e condição de vida (eu, pelo menos, nunca vi um emo ou colorido passando dificuldades).
E digo mais: essa moda de agora também tem o fator positivo de não "sexualizar", digamos assim, as crianças antes do tempo.
Eu, pelo menos, fico mais consolada em saber que as meninas de 12 ou 13 anos deste mundo estão sentadas diante de seus computadores assistindo pela milésima vez ao Justin Bieber em sua performance de Baby, oooooohh e não à Lady Gaga se contorcendo de lingerie.
Não é?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

V de Justiça


Sabe, eu já fui ferrenha defensora da vingança. Aquele sentimento de "pagar na mesma moeda", ou de "dai força aos meus inimigos, para que eles possam assistir a minha vitória" dava uma satisfação pessoal, uma impressão de justiça, sei lá.
Felizmente a gente cresce, e anos depois, por motivos religiosos acabei descobrindo um outro lado da justiça: o perdão. E mais alguns anos depois cheguei à conclusão de que a vingança não só não compensa, como também só traz prejuízo ao vingador em questão. Nos casos mais famosos, cito o brilhantíssimo Edmond Dantés (o Conde de Monte Cristo) e o V (for Vendetta), tendo um pago deixando o amor de sua vida, e o outro, deixando o amor de sua vida e a própria vida.
E a cantilena eterna do "deixa debocharem de você, porque um dia você será bem sucedida e eles não" praticamente dispensa comentários. Afinal, nem sempre quem sofreu ofensas no passado será necessariamente bem sucedido no futuro, e mais ainda, pode muito bem acontecer que quem foi vil no passado acabe por ter uma vida de sucesso. Ou mesmo pode acontecer que o ofendido em questão dedique sua vida a obter todo o mérito, e o inimigo nem se lembre mais dele. O custo-benefício da vingança é claramente negativo.
Mas isso não vem ao caso.
O que mais me intriga é o porquê deste fascínio tão grande que ela exerce. Meu lado racional explica claramente que ela não serve para nada, e mesmo assim não há como deixar de lado a minha expressa preferência por Dantés e o fato de ser V um dos meus filmes favoritos.
Por quê?
Por que avozinhas que fazem bolinho de chuva e tricô querem unanimamente que a vilã da novela tenha morte dolorosa e sofrida no último capítulo? Por que as crianças - aliás, não só as crianças, mas todo mundo (só que só elas expressam), ao ver o antagonista do filme em seu fim trágico sorriem e pensam "bem feito!"? Não vejo lógica nenhuma nisso.
Seria, por acaso, algum inconsciente coletivo tarantinesco que quer empunhar uma espada ninja e escalpelar todos que já lhe fizeram mal?
Não faço ideia.
O que me vem à mente é que a humanidade ainda tem que evoluir muito, mas muito mesmo, para deixar para trás completamente o "olho por olho, dente por dente". Nós nos empenhamos - aliás, não só nos empenhamos, mas de fato o fazemos - a perdoar e esquecer, mas na hora da batalha do mocinho contra o vilão, o duelo só está completo com o último jazendo ensanguentado.
Nosso inconsciente ainda é tão primitivo quanto na época dos apedrejamentos ou da guilhotina.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Das profundezas

Primeiro, confesso. Confesso que desde que entrei de férias deixei este blog à deriva, navegando quase sem leme e sem capitã por semanas a fio. Confesso que tenho me dedicado mais aos assuntos mundanos e às leituras "miojo" (ver Livro "miojo", livro "macarronada") do que era aconselhável.
Confesso também que me apaixonei. E descobri que essa história de que o amor é inspirador deve ser para talentos superiores, para almas mais elevadas. Para mim não funcionou. Nunca amei tanto e escrevi tão pouco.
Admito que nas férias me dediquei ao trabalho (não, não teve moleza!), aos amigos, à família e até à cozinha! (sim, à cozinha, e obtive notável progresso).
Confesso até que achei que já era aniversário de 2 anos do blog, e que descobri hoje que é só mês que vem. Mas agora já era. A postagem está feita. Peço desculpas pelas teias de aranha e volto. E quero convidá-los a continuarem sentados aqui comigo, neste Banquinho "dois ponto zero", regido por mim agora também "dois ponto zero".
Chega de férias. Retomo o leme e começo de novo aqui.
Até a próxima!

terça-feira, 6 de julho de 2010

"Aí, viu?"

Em tempos de copa do mundo, uma situação que existe o ano inteiro - todos os anos - fica ainda mais evidente: até o homem mais contrário aos preconceitos de todo tipo se rende ao machismo diante de 22 homens disputando uma bola.
Eu gosto de futebol. Gosto bastante, até. Assisto aos domingos, vejo as notícias quase diariamente e sei o suficiente para opinar quando está impedido ou não está impedido. Acontece que quando declaro que assisto aos jogos da copa por motivo diverso às coxas dos jogadores, recebo dois tipos de olhares: de descrença ou de desafio. O segundo vem invariavelmente acompanhado de uma pergunta. "Ah é, então escala a seleção aí".
Acontece que eu não sei a escalação da seleção brasileira. Sempre me esqueço dos dois laterais. "Aí, viu?".
Paradoxalmente, eu acredito que a maioria dos homens do meu convívio também não saibam a escalação completa. Para alguns cheguei até a perguntar e confirmei. Só que homem nenhum precisa comprovar conhecimento técnico para assistir ao jogo em paz. Ninguém pergunta para um homem se ele sabe todos os nomes dos jogadores de seu país (fora os reservas!) quando ele diz que o técnico deveria fazer determinada subsituição. Não, para eles o futebol é inócuo.
Acho que tem um padrão nacional futebolístico segundo o qual só é reconhecida a vontade da mulher de prestar atenção no jogo quando ela apresenta pós-doutorado em futebol. E mesmo assim, ainda ficam com a pulga atrás da orelha.
E digo mais: quem reforça este tipo de comportamento são as próprias mulheres. Se aparece uma mulher (ou grupo delas) na televisão ou em qualquer lugar para falar da copa, só o que se pergunta e se fala é da beleza e do físico dos jogadores. E todo mundo fica bobo de ver e até bate palminha se alguma sabe, sei lá, o que é um escanteio.
Se continuarmos nos comportando como crianças pouco inteligentes, vai ser difícil sermos tratadas de outra forma, e aí não falo só de futebol.
Voltando à escalação, eu não tenho dúvidas de que poderia decorá-la. Passei no vestibular e no Enem com muita decoreba, diga o governo o que quiser a respeito. Só que, decorando ou não decorando, eu teria de continuar lidando com esse ciclo interminável de perguntas de futebol que existem, e numa delas (como aconteceria com qualquer ser humano, independentemente do sexo) acabaria tropeçando.

"Aí, viu?".

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Alheio

Vaguei livros inteiros atrás de um verso
Um verso! E achei.
E ele entrou-me pela garganta
encheu meus pulmões
molhou meus olhos
estourou meus tímpanos.

Emergi de coração batendo,
bombeando uma dor que não era minha.

sábado, 17 de abril de 2010

Lirismo

O lirismo é para mim como que um amor platônico. Acho-o lindo, belíssimo, quando o vejo passar nos trajes vistosos de um poema do Álvares de Azevedo ou do Vinícius. Acho-o atraente quando anda discreto, como quem não quer nada, em algum quarteto do Quintana. Gosto dele até quando rude e seco no sertão de Graciliano Ramos.
Flerto com o lirismo, admiro-o quando o vejo. Se acaso me dirige a palavra fico sem ar, suspiro profundamente, nunca sei o que dizer, só fico lá, abobada, olhando. Se vem tuberculoso e insano junto com Augusto, quero curá-lo. Se vem desiludido dos amores e da vida, ofereço consolo.
Mas só que o lirismo não liga pra mim.
Não importa quanto tempo eu dedique chamando, ele nunca dá o ar da graça. Recito poemas, leio prosa, ouço boa música, mas ele não vem a mim, não sei porquê. Vejo que outras pessoas - até alguns amigos meus! - convivem e escrevem com ele na maior naturalidade, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Que inveja!
E eu também tenho medo. Temo que se eu for atrás dele, pegá-lo à força, trazê-lo para mim, ele não será autêntico. Tenho medo de que o lirismo seja falso, de que seja superficial, forçado, namorador, político, raquítico, sifilítico. Morro de medo! E o maior de todos: medo de não estar à sua altura.
Acho que o que eu preciso é me desiludir do lirismo: tomar consciência de que ele não vai querer saber de mim tão cedo, me conformar e continuar vivendo e escrevendo sem ele. Vou deixá-lo para almas mais competentes.
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Estou contigo, Bandeira!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Acho que foi porque a tv ficou ligada

Não sou lá muito a favor de postar vídeos no blog, primeiro porque não sei editar e tenho certeza de que nunca conseguiria produzir um, segundo porque para ver vídeos o caro leitor dispõe do youtube para assistir aos que bem entender. Também já sei que tem muito tempo que eu não escrevo nada, mas esta música - em especial a parte da letra que está aí embaixo - diz mais ou menos tudo o que eu queria. Vale a pena ouvir junto.

Faz muito tempo que eu não escrevo nada,
Acho que foi porque a TV ficou ligada
Me esqueci que devo achar uma saída
E usar palavras pra mudar a sua vida.

Quero fazer uma canção mais delicada,
Sem criticar, sem agredir, sem dar pancada,
Mas não consigo concordar com esse sistema
E quero abrir sua cabeça pro meu tema

Que fique claro, a juventude não tem culpa.
É o eletronic fundindo a sua cuca.
Eu também gosto de dançar o pancadão,
Mas é saudável te dar outra opção.

Os meus heróis estão calados nessa hora,
Pois já fizeram e escreveram a sua história.
Devagarinho vou achando meu espaço
Mas não me esqueço das riquezas do passado.

Eu quero "a benção" de Vinícius de Morais,
O Belchior cantando "como nossos pais",
E "se eu quiser falar com..." Gil sobre o Flamengo,
"O que será" que o nosso Chico tá escrevendo.

Aquelas "rosas" já "não falam" de Cartola
E do Cazuza "te pegando na escola".
To com saudades de Jobim com seu piano,
Do Fábio Jr. Com seus "20 e poucos anos".

Se o Renato teve seu "tempo perdido",
O Rei Roberto "outra vez" o mais querido.
A "agonia" do Oswaldo Montenegro
Ao ver que a porta já não tem mais nem segredos.

Ter tido a "sorte" de escutar o Taiguara
E "Madalena" de Ivan Lins, beleza rara.
Ver a "morena tropicana" do Alceu,
Marisa Monte me dizendo "beija eu"

O Zé Rodrigues em sua "casa no campo"
Levou Geraldo pra cantar no "dia branco".
No "chão de giz" do Zé Ramalho eu escrevi
Eu vi Lulu, Benjor, Tim Maia e Rita Lee.

Pedir ao Beto um novo "sol de primavera",
Ver o Toquinho retocando a "aquarela",
Ouvir o Milton "lá no clube da esquina"
Cantando ao lado da rainha Elis Regina.

Quero "sem lenço e documento" o Caetano
O Djavan mostrando a cor do oceano.
Vou "caminhando e cantando" com o Vandré
E a outra vida, Gonzaguinha, "o que é?"

http://www.youtube.com/watch?v=7oXis0HZPz0

quinta-feira, 11 de março de 2010

Inveja

Guerra, sexo, esporte
- me dás tudo, tudo.
Vou pregar minha porta:
já não preciso do mundo.
José Paulo Paes

Quando li esses versos do José Paulo Paes pela primeira vez - assim mesmo, só esse pedaço, sem o resto do poema - fiquei absolutamente maravilhada. Agora, já me parecem comuns, reles, mas naquele momento foi quase um êxtase. Qual soneto de fidelidade, antíteses camonianas! Era a declaração de amor perfeita.
Sempre tive admiração e grande respeito pelos monges e demais penitentes que se dispunham a viver fora do mundo para se dedicarem exclusivamente à oração ou meditação. Para mim, só uma fé colossal e um amor tão grande quanto poderiam fazer alguém abandonar a vivência da carne. E - também opinião pessoal - essa fé e esse amor tão grande dispõem de uma só fonte: Deus.
E então me deparei com esses versos, em que o autor dizia simplesmente não precisar do mundo. Tratando-se de um homem, supus que a criatura iluminada que o havia inspirado era uma mulher, e não pude evitar sentir aquela pontada dolorida de inveja que eu costumo ter das musas dos grandes poetas. O fato de renunciar à vida secular por qualquer motivo não religioso era para mim a expressão do sentimento mais forte, da paixão mais apaixonada que alguém poderia ter.
Foi aí que resolvi procurar o restante do poema. E encontrei. Os queridos leitores sabem o título dele? "À televisão". Exato. Aquela devoção toda a um eletrodoméstico. Primeiro, desilusão devastadora. Depois, cheguei a sorrir com desdém, pensando na companheira do poeta. Coitada, mas que rival foi arranjar! Minha inveja esgotou-se de todo.
Meu desdém também durou pouco. Logo me peguei pensando que a sedutora tevê não existia apenas na cidade do poeta, mas também no mundo inteiro. A rival universal. E por sinal, já vitoriosa: sou física e intelectualmente incapaz de prover tudo o que uma televisão oferece. Aliás, não só eu: qualquer uma.
Acho que mudei meu conceito de amor colossal.

Aqui está o link do poema completo, para vosso deleite:http://www.imaginariopoetico.com.br/2009/06/televisao-jose-paulo-paes.html
E um ps.: Desculpem-me pelo abandono digno de teias de aranha em que deixei este blog nas últimas semanas. Foi por uma causa justa: mudei de cidade para entrar na faculdade (sim, oh! a faculdade!) e saí da faculdade e voltei para minha cidade, de onde sairei novamente para entrar em outra faculdade daqui a algumas semanas (nessa eu pretendo ficar). Por favor, não me abandonem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Oferenda

Ela nunca tinha sido muito afeita a filosofias, mas diante daquela explosão de apelo visual não resistiu, parou e foi admirar e refletir.
Era, de fato, uma beleza.
Alegre, festivo, uma profusão de formas esculturais, quase arquitetônicas, que se erguiam e curvavam em direções diversas. Tudo era colorido e sinuoso. Que ostentação de luxo!
Tudo que era relativo à reprodução da espécie, ao invés de coberto, oculto, era ali exibido com orgulho.
Efêmero, sem dúvida. Não duraria mais que cinco dias. Mas, durante aquele curto tempo, seria como uma oferenda à potestade dos sentidos, a visão.
Primeiro, ela pensou que aquela beleza toda só poderia ser divina. Depois, perdida nas suas divagações, concluiu que aquele excesso sensorial não poderia ser etéreo: era carnal demais.
Isto é, se fosse carne, se fosse humano.
"Mas que belo arranjo", pensou.
Ajeitou a jarra de flores para um ângulo mais favorável na mesa e foi atender ao telefone.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Desejo

Porque tem hora em que a mente fica tão mundana,
que o coração só quer bater poesia
como um alcoólatra bebe cachaça,
como um faminto vai para a mesa.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A roda viva da redação escolar

Não sei se fui a única a achar o tema da redação do Enem meio irônico. De fato é muito esquisito uma prova que já foi fraudada pedir "o indivíduo frente à ética nacional" como proposta. Mas até aí era uma só. Hoje fui abrir a prova da segunda fase da Uerj e estava lá "dê sua opinião sobre a cultura de transgressão das leis".
Hmmm... interessante.
Agora de repente parece que alguém está querendo promover a moralização dos vestibulandos através de composições escritas. Não deixa de ser um bom projeto, mas, sinceramente, o que será que estão querendo com isso? Com certeza não é para colher nossa preciosa opinião a respeito, porque eu quero ver quem é que conseguiria fazer caber "as informações contidas nos textos da proposta, os conhecimentos adquiridos na sua formação e suas reflexões pessoais" em 5 parágrafos somando 29 linhas (porque uma é do título) com introdução, desenvolvimento e conclusão sem fugir do tema. Em uma hora.
Não vou dar uma de rebelde sem causa aqui: as dissertações são importantes e têm valor como textos argumentativos que são. E mais ainda: vestibulares sem redação perdem muito de sua credibilidade. Mas a verdade é que pedir para o aluno colocar seus valores, seus conceitos de ética (ou da falta dela) no papel e daí atribuir nota de 0 a 10 para isso, não sei não, mas para mim já é abuso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Corcundas


"Nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é só bunda"
Rita Lee

Quer saber? Eu acho que o debate sobre o conceito de dignidade feminina transcende em muito os vestidinhos. Transformaram a moça da Uniban numa semi-mártir do movimento feminista. Ora, façam-me o favor! Que história é essa de ela simbolizar a "nossa luta" ou "nossos direitos"? Nossos quem, cara pálida? Se a luta do movimento feminista hoje é pelo "direito" de usar nanovestidos, eu estou fora.

A atitude dos estudantes da universidade bandeirantes foi sem dúvida absurda. Vai dizer que eles nunca viram uma mulher com menos roupa ainda? Agora, daí a transformar a moça que em entrevista disse que o que queria era "ficar gostosa" em heroína é outra história.

Não me entendam mal. Todo mundo deve vestir o que bem entende, até porque o tempo do Jânio já passou e (que eu saiba) não tem nenhuma lei regulamentando o comprimento de vestidos em faculdades nem em lugar algum. Cada um sabe quantos centímetros de pano mede o seu respeito.

De fato, o "calor dos trópicos" (argumento mais usado pelos defensores das nanovestimentas) torna impraticável sair de casa de calça comprida no verão. Porém, o bom senso também mandou lembranças e as pessoas têm consciência de que não se pode trabalhar de biquíni nem sunga e que fica mal para um profissional chegar no serviço de shortinho e chinelo se você não trabalha de ambulante na praia.

O fato é que esse debate me parece muito mais machista que feminista. Afinal, mesmo no tal "calor dos trópicos" ninguém nunca fez um escarcéu desses para defender a ida de homens descamisados às faculdades.

E o mais aleatório de tudo foram os estudantes da UNB querendo atestar toda a sua superioridade cultural em relação aos da Uniban aparecendo nus em protesto.
Deviam oferecer uma vaga para a Geisy Arruda lá.
Ela também vai tirar a roupa.
Só que, diferentemente deles, ela vai ganhar para isso.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Falando difícil 2 - O vocabulário e o sentimento


Diferentemente da articulação do pensamento, o sentimento não precisa de vocabulário amplo para se manifestar. Pelo menos não um tipo: o sentimento "concreto". Estranho, não?

Como provavelmente a maioria vai lembrar, todo mundo classifica qualquer sentimento como "substantivo comum abstrato simples ou composto". A tia da 4ª série vai ficar orgulhosa. E além do mais está certíssimo. Mas tirando a classe gramatical e pensando somente nos sentimentos mesmo, eles poderiam ser classificados em dois tipos: o abstrato (ou descritivo) e o concreto.
Sem chavões, ok? Todo mundo sabe que a função do coração é bombear sangue e que a gente sente é com o cérebro mesmo. Como o que vem do cérebro é pensamento, o silogismo de que os sentimentos são um tipo de pensamento parece bem aceitável. Certo. Mas será que uma pessoa de grande bagagem lexical sente do mesmo jeito que uma que se restringe a uma simples frasqueira de vocabulário?

Aí é que está. O sentimento "concreto" é o que se materializa a partir de ações concretas. Recorrendo (como de costume) à literatura, temos que o Fabiano de Vidas Secas, por exemplo, tem um vocabulário pífio. Porém, possui uma sentimentalidade complexa. Seus sentimentos são baseados em coisas palpáveis. A admiração que ele tem por Sinhá Vitória é clara, mas em momento algum ele ou o autor citam esta palavra ou qualquer outro sinônimo. Fabiano admira sua mulher porque ela sabe fazer contas, "tem miolo" e é bonita. E isso tudo é bom. Ele gosta dela por esses e infinitos outros motivos, todos eles concretos. Tampouco o sertanejo de Graciliano Ramos expressa oralmente seu agrado. Suas manifestações são tembém concretas, ainda que mentais. Ficou complicado. São concretas porque todas teriam uma materialização possível, aconteça ela ou não. Por exemplo, recompensar a beleza da esposa (que ele vê) com uma roupa encarnada ou uma saia de ramagens (que existem).

Agora, quanto mais uma vocabulário uma pessoa adquire, com mais detalhamento pode descrever seus sentimentos (para si ou para os outros). Daí vêm os sentimentos descritivos, isto é, que são sentidos da mesma maneira, mas por serem decompostos e analisados ficam cada vez mais abstratos, e por consequência mais próximos da razão e mais distantes do instinto. O sentimento descritivo nem precisa ser exclusivo da pessoa: por exemplo, alguém que nunca foi traído pode ter noção da angústia (embora não senti-la por completo) ao ler Dom Casmurro. Várias situações que o indivíduo não viveu podem ser virtualmente sentidas ao ler uma descrição bem feita.

Portanto, o sentimento concreto é completamente independente do vocabulário, enquanto o abstrato torna-se mais e mais desenvolvido na mesma proporção que este, ficando - embora menos intenso que o concreto - mais amplo e mais compreensível.


"(...)Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam."

Cap XII, O Mundo Coberto de Penas, Vidas Secas, Graciliano Ramos.

sábado, 31 de outubro de 2009

Falando difícil - O vocabulário e o pensamento


"O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita"
João Guimarães Rosa

Um vocabulário vasto não implica necessariamente em um pensamento vasto, porém um pensamento amplo exige um vocabulário amplo. Por vocabulário aqui entende-se o seu sentido mais simples: número de palavras conhecidas. De forma resumida, quanto mais verbetes se conhece, mais "coisas" se pode nomear e relacionar.

Provavelmente alguém já está pensando que, se determinado indivíduo conhece os objetos e os sentimentos, pode saber relacioná-los sem precisar conhecer seus nomes. Pode até ser, mas o limite do pensamento vai muito além do que se vê e do que se sente. Afinal, como explicar a uma pessoa o que é "direito" ou o que é "literatura" sem utilizar palavras?

Além do vocabulário, para articular um pensamento é preciso também um mínimo de gramática. Afinal, uma palavra só se encaixa na outra quando vem aquele batalhão de conjunções, apostos, objetos, etc. Gramática não para tolhir, mas para dar fluidez ao pensamento, para conectar, para tornar coeso.

Nos últimos tempos tem feito muito sucesso a teoria das "múltiplas inteligências". Só que grande parte dessas são "múltiplos instintos", como por exemplo a tão citada "inteligência futebolística" de Garrincha. Inteligência para mim é capacidade de formular pensamento próprio. Todo mundo nasce com a mesma inteligência, só que nem todos procuram ou têm condições de desenvolvê-la.

Como disse o mestre Guimarães Rosa, o homem nasceu para aprender. E quanto mais aprende, mais pode aprender, mais pode pensar. Quanto mais conhecimento se tem, mais conhecimento se produz, e é assim que a gente evolui. O autor da frase lá em cima, por exemplo, chegou ao ponto em que aprendeu tanto que para seu pensamento não bastava o vocabulário existente: ele precisava criar mais palavras para se expressar. Fica um trechinho dele pra remoer:


"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: pra pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém."

João Guimarães Rosa
Grande Sertão - Veredas

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Falando difícil


"Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento."
Ludwig Wittgenstein

Desde que li A Trilogia de Nova York, do Paul Auster, fiquei com um pensamento na cabeça: até que ponto o domínio da linguagem - ou a falta dele - interefere na mente, no comportamento e nas relações humanas. Há uns dois ou três anos eu tenho pensado nisso, e vira e mexe encontro algum texto falando sobre o assunto.
Semana passada terminei o Vidas Secas, do Graciliano Ramos, que não trata da articulação da língua, mas da vida sertaneja. Só que, no meio do sertão, Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos são como magistrais exemplos do impacto que causa a falta de vocabulário no pensar e nas atitudes.
Para completar, no vestibular simulado do Pitágoras o texto que abria a prova de português era justamente um artigo do Cláudio Moreira de Castro (Os meninos-lobo, Veja, 08 de julho de 2009) a respeito das crianças que nasceram isoladas sem oportunidade de aprender a falar. Foi o empurrão que faltava.
A discussão deu tanto pano pra manga que eu resolvi fazer não um texto, mas uma série (até agora penso em três textos, mas acho que dá para diminuir ou aumentar dependendo das ideias) sobre o "falar difícil".
Espero que gostem!

domingo, 18 de outubro de 2009

O tal do verbivocovisual

A razão humaniza o homem, mas o que o eterniza é o sentimento. Na vida eu não sei, mas na arte é assim que me parece ser. A matéria de Literatura bimestre passado foi a poesia concreta, e não posso negar que ela realmente é diferente de tudo o que já vi antes. Palavras estranhas, coloridas, de diferentes tamanhos, espalhadas na página, às vezes até a ausência delas. Se faz pensar? Sem dúvida.

Um dia minha mestra falou que a gente pode até não gostar de determinado autor ou poema, mas o que mostra se o tal poeta tem qualidade ou não é o estranhamento que ele causa em nós. O que não pode é passar indiferente. Não posso dizer que a poesia concreta passou despercebida por mim - muito pelo contrário, achei até bem esquisita - mas nada me tira da cabeça que toda aquela rebeldia contra a forma, a cor, as fontes estranhas, não têm outra função senão disfarçar um vazio imenso, gigantesco, colossal de conteúdo e alma.

Os parnasianos foram o contrário: fizeram uma escultura maravilhosa de palavras, digna de um templo grego: a forma perfeita, a métrica exata, a rima, os versos trabalhados num poema oco. O mesmo vazio de conteúdo e alma. Talvez por isso até hoje todo mundo olhe o movimento parnasiano com certa antipatia. Quem geralmente se salva é o Bilac, justamente porque tratou dos sentimentos. Com aquele jeitão, em cima de um pedestal de mármore, não importa. Os sentimentos dele são os mesmos de qualquer plebeu.

A razão nos individualiza: é ela que nos dá a graça de sermos diferentes uns dos outros. Ela nos humaniza e nos torna grandes, significativos e poderosos.
O sentimento aproxima, coletiviza. Ele é igual. E justamente por isso eterniza determinada arte, pois o cidadão vê seu sentimento no poema, do jeitinho que ele sente: só precisava de um ser iluminado - o poeta - para transcrevê-lo.

O apego demasiado à forma - seja à perfeição ou à completa disgressão dela - é disfarce. A métrica é boa, a rima é boa, quando servem para enriquecer o conteúdo do poema, o sentimento do poema. O que não pode é deixar a alma em segundo plano para caber num verso decassílabo ou redondilho.

Até porque coca-cloaca do Décio Pignatari e o crisantempo do Haroldo de Campos são uma beleza, mas nunca vão ter a sustância da terra de um João Cabral de Melo Neto, a doce ironia das ruas de um Mário Quintana ou o pulsar desesperado do coração de um Álvares de Azevedo.


Para quem ficou curioso
http://www.poesiaconcreta.com.br/