Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Catarse ha-ha-ha

Ridendo castigat mores

Existem vários tipos de humor. Humor barato, negro, inteligente, sujo e até o chamado "humor engraçado" como inventaram ultimamente. O humor é muito amplo, é necessário especificá-lo: este texto é sobre humor barato político brasileiro. O leitor naturalmente está pensando que humor político se classificaria melhor em "inteligente" que em "barato", mas é bom não confundir: é humor barato versão política. Brasileiro, pois não tenho vivência no exterior para saber como é por lá.

O provérbio latino na epígrafe quer dizer "rindo corrigem-se os costumes". Na comédia do teatro clássico, existia este processo de fazer rir para corrigir o senso comum. O humor era uma ferramenta política. Por meio dele, o cidadão enxergava defeitos e falhas da sociedade para depois corrigi-los. O que se vê hoje na maioria das charges, das publicações humorísticas e dos programas televisivos (maioria não é totalidade!) é a completa falência do sistema de rir para castigar.

Agora, o que se faz é rir para acomodar. O provérbio que melhor expressa é "só rindo para não chorar". É muito mais fácil banalizar (ou baratear) para consolar. Um povo anestesiado com humor barato se torna menos crítico. Dinheiro na cueca? Castelo escondido? Farra de passagens? HA-HA-HA. Seria hilário se não fosse trágico. E isso tudo é explorado que é uma beleza. E o povo ri. Ri sem castigar costume nenhum. Ri para não chorar. Ri sem protestar, sem questionar, sem mudar de atitude. Ri porque não tem jeito nem jeitinho que resolva.

E o mais triste (ou seria mais cômico?) é que os próprios políticos passaram a levar na brincadeira. Riem junto com o povo, da cara do povo, na cara do povo.
Ficou tudo tão engraçado que tem gente se esquecendo até de ficar sem graça.
Quer saber? Não tem graça nenhuma.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Posse

Decorar poemas é como catar conchinhas: as pessoas tentam de todas as formas se apossar de uma beleza sublime que não é sua nem pode vir de si, só para poder admirá-la quando lhes apraz e mostrá-la a quem possa interessar com ar de dono.




Obs.: O Banquinho está no jornal! O artigo sobre o novo ENEM está na edição 37 do Valença em Questão, que saiu na quinta feira. A edição está especialmente voltada para a Educação, e está disponível para baixar no blog do VQ (http://blogdovq.blogspot.com/).

Domingo, 28 de Junho de 2009

A sociologia e o caipvodka

Festa junina. Agora nas quadrilhas tem tango, tem música da Xuxa, tem música indiana, tem música do Michael Jackson (um minuto de silêncio). As caipiras agora usam cinta-liga e meia 7/8. O arrasta-pé virou batidão. E a batida e o quentão não dão mais lucro.
Como as festas de colégio ainda são familiares, resolvemos vender então algo mais familiar: caipfruta com guaraná para as crianças, com uma dose modesta de vodka para os adultos e fondue de chocolate. Mais para o fim da noite, vendo nosso lucro desaparecer, resolvemos vender a alma a vodka pura em doses. Vou tratar o texto como um relatório, isto é, sem opinião, só os fatos.
1 - Das quantidades:

Foram compradas 4 garrafas de vodka. As primeiras duas, em forma de caipfruta, demoraram seis horas para serem vendidas. As outras duas acabaram em 45 minutos.

2 - Dos preços:

Qualquer cidadão maior de 18 anos pode comprar uma garrafa de um litro de vodka por R$3,00 em um supermercado. As doses têm aproximadamente 60mL e são vendidas a R$2,00 cada. E acabam rapidinho.

3 - Dos comentários:

"Arrrrrgh mas isso é muito ruim. Me vê mais uma aí!"

"Ahn, o fondue engorda muito, né? Me vê dois caipvodkas então."

"_Quanto é o caipfruta?
_É dois reais.
_O que é que leva nisso?
_Morango, leite condendado e uma dose de vodka.
_Uma dose só?
_É, uma só.
_Poxa, mas dois reais é muito caro pra uma dose só! Você vende vodka pura?
_Vendo.
_Quanto é?
_É dois reais a dose.
_Ah então eu vou querer uma."


Se beber, não dirija.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Julgamento dos alunos das escolas particulares

Atenção: Este texto é puramente fictício e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Desde já admito que não tenho conhecimento algum de ciência jurídica e não sei como funciona um real julgamento. Se for copiar, por favor cite a fonte. Grata.

Leitura da sentença: São acusados os alunos das instituições de ensino da rede privada de roubar as vagas dos estudantes das instituições públicas nas universidades federais e estaduais.

Os réus não estão presentes, pois não caberiam no tribunal, então foram convocados alguns acusados para falar por todos. Entra a primeira acusada.

Promotor: A senhorita passou para o curso de Medicina da Universidade Federal de Confim da Terra pelo concurso vestibular do ano passado?
Acusada: Sim, senhor.
P: Sua escola era particular ou pública?
A: Particular.
P: A senhorita estudava em qual turno?
A: Manhã e tarde.
P: Fez cursinho preparatório?
A: Sim, aos sábados de manhã e às segundas, quartas e quintas feiras à noite.
P: Quantas horas de estudo diárias costumava ter?
A: Oito horas no colégio, e mais quatro horas de estudo em casa.
P: Já trabalhou alguma vez na vida?
A: Nunca.
P: Seus pais têm condições financeiras de pagar uma faculdade particular?
A: Sim.
P: Por que, então, a senhorita optou por cursar uma universidade pública?
A: Porque as faculdades públicas têm conceito muito maior no mercado de trabalho.
P: Então a senhorita confessa ter passado doze horas diárias estudando para obter uma vaga que era por direito de alguém que não tinha condições de pagar uma faculdade particular? Admite então que roubou a vaga de um estudante de escola pública que ficou sem professor de várias matérias e que tinha de trabalhar para ajudar no sustento da família?
A: Não estudei para roubar a vaga de ninguém, estudei porque queria muito passar no vestibular para garantir meu futuro profissional.
P: E quem é que vai garantir o futuro profissional do grande contingente de estudantes que não têm as suas condições?
A: Mas a falta de condições dos colégios públicos é problema do Estado!
P: Protesto! A ré está ofendendo o Estado.
Juíz: Protesto aceito.
Promotor: Sem mais perguntas.

A assistência fica agitada e alguém grita:

_Por acaso os alunos das escolas particulares têm culpa do descaso das autoridades para com a educação pública?...
Juíz: Silêncio!
_Não são eles tão cidadãos quanto qualquer estudante da rede pública?
Juíz: Ordem no tribunal!
_A Constituição não diz que todos são iguais perante a Lei?
Juíz: Tirem este homem daqui.

O homem é tirado do tribunal pelos seguranças.

Promotor: Os alunos das escolas particulares têm roubado as vagas dos estudantes das escolas públicas há anos. Eles estudam como loucos com o intuito mesquinho de furtar a vaga alheia, para que os mais pobres não tenham condições de competir com eles no mercado de trabalho. Eles são egoístas e só pensam em seu próprio futuro.
Advogado: A precariedade do ensino nas escolas públicas não é culpa destes alunos que ainda nem trabalham! Ora, se os pais deles pagam os impostos e votam como quaisquer outros cidadãos, as universidades públicas são também direito deles.
Promotor: Pode até ser que sejam, mas eles não podem ficar com todas as vagas.
Advogado: Todos são iguais perante a Lei e devem concorrer às vagas igualmente, e deve passar quem obtiver a maior nota.
Promotor: Mas então os estudantes das escolas públicas continuarão sendo minoria nas universidades, e nós precisamos defendê-los, já que são o maior número. Este bem que fazemos hoje com certeza terá reflexos a curto e médio prazo, e creio que ano que vem já começaremos a senti-los.
Advogado: É verdade.

Juíz: Eu declaro os estudantes das escolas particulares culpados por roubarem as vagas dos estudantes das escolas públicas nas faculdades, e eles cumprirão pena de concorrer a somente metade das vagas em toda e qualquer instituição pública de ensino superior no país.
Sessão encerrada.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

"Tá querendo"

Não entendo por que é que na nossa sociedade a mulher está sempre "querendo". Se um homem sai em camisa, está com calor. Se uma mulher sai de decote ou top, está "querendo". Se um homem vai ao baile funk é para se divertir. Se a mulher vai, é porque está "querendo". E o pior é que várias vezes são as próprias mulheres que dizem isto umas das outras.
Não vou fazer nenhuma dissertação a favor de tops ou bailes funk, pois não gosto de nenhuma das duas coisas. O fato é que a mentalidade machista já está tão enraizada que pensamos sem sequer questionar. Tem homem que acha que "gostosa" é elogio. O que é gostoso é comida, e tal sinestesia não me agrada nem um pouco.

Será que uma mulher que vai a um baile funk esta mesmo "querendo"? Será que por sair de minissaia ela dá a outrem o direito de compará-la a comidas e animais? Pode até existir quem goste desse tipo de comentário, mas não sei quem instituiu que isso é o senso comum e que qualquer um tem direito de mexer com uma mulher na rua. O pior é que não vale nem se revoltar. Imagina uma mulher abrindo um processo contra um homem que a chamou de gostosa. O juíz vai rir da cara dela.

Outra coisa que eu não entendo é como é que uma mulher que dança feliz da vida uma música que a chama de cachorra sai no tapa se você a chamar de cadela.

Entendo menos ainda por que é que um homem gostaria de ter uma cachorra por companheira.

Não entendo muitas coisas, mas uma é certa: nem toda mulher "está querendo". E a melhor forma de descobrir com certeza não é usar uma cantada barata.

Domingo, 24 de Maio de 2009

Orgânico não é vivo

E não venha me convencer que pirulito é fenol, mini-colméia é naftaleno e sol é benzeno porque eu não acredito em nada!

Domingo, 17 de Maio de 2009

Sandice

O que todos mais querem hoje é provar para Deus e o mundo que não são normais. A loucura está na moda. É novela, é filme, é orkut, é música, é tudo: uma negação absoluta da normalidade. Hoje em dia ninguém é aceito socialmente se não se declarar ao menos "meio maluco". Eu acho que as pessoas se desiludiram da normalidade. Eu vejo gente caçando sandices em tudo que é lugar para poder afirmar: "sou autista/esquizofrênico/transtornado/louco (ou coisa que o valha". Mas o que é isto, meu Deus?
Há uns vinte anos chamar alguém de louco era ofensa. As famílias em que realmente existiam casos de distúrbios mentais rapidamente se ocupavam em esconder aos olhos da sociedade tal situação. Hoje não: ser bipolar é um charme. Será que de algumas décadas para cá a pressão do mercado de trabalho, o stress ou a mídia fizeram uns 80% da sociedade enlouquecer? Creio que não.

Alguém instituiu "normalidade" como sinônimo de "padronização". Como padronização é um termo cada vez mais carregado de carga pejorativa, o que todos querem é fugir disto. Então acontece uma verdadeira "caça à doença", isto é, procurar qualquer ínfima diferença que os isole da massa. Acontece que sempre vai existir uma diferença. E isto é o que há de mais comum.

É lógico que eu sou contra o preconceito com os doentes mentais. Acontece que o que está ocorrendo é a perfeita banalização destas doenças. Ora, se todo o mundo se declara "meio esquizofrênico", será que um esquizofrênico verdadeiro vai procurar se tratar - e levar a sério este tratamento? Ou pior: será que não demora muito até o sistema de saúde estar abarrotado de pseudo-transtornados (que podem ocupar os lugares de quem realmente precisa)?

Que modinha de anormalidade é essa? Não há nada mais comum do que ter certas atitudes que fujam do que você acha que é "o padrão". Oh, meus amigos: somos perfeitamente normais. Espetáculos da lucidez. Absolutamente sãos.


Graças a Deus.