terça-feira, 10 de novembro de 2009

Falando difícil 2 - O vocabulário e o sentimento


Diferentemente da articulação do pensamento, o sentimento não precisa de vocabulário amplo para se manifestar. Pelo menos não um tipo: o sentimento "concreto". Estranho, não?

Como provavelmente a maioria vai lembrar, todo mundo classifica qualquer sentimento como "substantivo comum abstrato simples ou composto". A tia da 4ª série vai ficar orgulhosa. E além do mais está certíssimo. Mas tirando a classe gramatical e pensando somente nos sentimentos mesmo, eles poderiam ser classificados em dois tipos: o abstrato (ou descritivo) e o concreto.
Sem chavões, ok? Todo mundo sabe que a função do coração é bombear sangue e que a gente sente é com o cérebro mesmo. Como o que vem do cérebro é pensamento, o silogismo de que os sentimentos são um tipo de pensamento parece bem aceitável. Certo. Mas será que uma pessoa de grande bagagem lexical sente do mesmo jeito que uma que se restringe a uma simples frasqueira de vocabulário?

Aí é que está. O sentimento "concreto" é o que se materializa a partir de ações concretas. Recorrendo (como de costume) à literatura, temos que o Fabiano de Vidas Secas, por exemplo, tem um vocabulário pífio. Porém, possui uma sentimentalidade complexa. Seus sentimentos são baseados em coisas palpáveis. A admiração que ele tem por Sinhá Vitória é clara, mas em momento algum ele ou o autor citam esta palavra ou qualquer outro sinônimo. Fabiano admira sua mulher porque ela sabe fazer contas, "tem miolo" e é bonita. E isso tudo é bom. Ele gosta dela por esses e infinitos outros motivos, todos eles concretos. Tampouco o sertanejo de Graciliano Ramos expressa oralmente seu agrado. Suas manifestações são tembém concretas, ainda que mentais. Ficou complicado. São concretas porque todas teriam uma materialização possível, aconteça ela ou não. Por exemplo, recompensar a beleza da esposa (que ele vê) com uma roupa encarnada ou uma saia de ramagens (que existem).

Agora, quanto mais uma vocabulário uma pessoa adquire, com mais detalhamento pode descrever seus sentimentos (para si ou para os outros). Daí vêm os sentimentos descritivos, isto é, que são sentidos da mesma maneira, mas por serem decompostos e analisados ficam cada vez mais abstratos, e por consequência mais próximos da razão e mais distantes do instinto. O sentimento descritivo nem precisa ser exclusivo da pessoa: por exemplo, alguém que nunca foi traído pode ter noção da angústia (embora não senti-la por completo) ao ler Dom Casmurro. Várias situações que o indivíduo não viveu podem ser virtualmente sentidas ao ler uma descrição bem feita.

Portanto, o sentimento concreto é completamente independente do vocabulário, enquanto o abstrato torna-se mais e mais desenvolvido na mesma proporção que este, ficando - embora menos intenso que o concreto - mais amplo e mais compreensível.


"(...)Agora Fabiano percebia o que ela queria dizer. Esqueceu a infelicidade próxima, riu-se encantado com a esperteza de Sinha Vitória. Uma pessoa como aquela valia ouro. Tinha ideias, sim senhor, tinha muita coisa no miolo. Nas situações difíceis encontrava saída. Então! Descobrir que as arribações matavam o gado! E matavam."

Cap XII, O Mundo Coberto de Penas, Vidas Secas, Graciliano Ramos.

6 comentários:

Rodolfo Diniz disse...

Haja inspiração...

Marina disse...

Complexo. Mas faz muito sentido.
Ótimo texto, Laila.

Edison Junior disse...

Ótimo!

Marcus "OROCHI" disse...

Laila, desta vez vc se superou! Excelente texto, parabéns! :D

Isadora disse...

excelente texto,colega!o tema complexo,mas foi escrito de uma forma bastante esclarecedora!
espero que dê continuidade a essa série,porque ta cada vez melhor!

Junior Macedo disse...

Querida, consegui te encontrar agora? Vc acredita? Estou lendo vagarosamente seu blog e pude sentir a imensidão do conteúdo aqui exposto. Pena eu ter "perdido" uma boa parte, mas... antes tarde do que nunca.