quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Venda nos olhos

Outro dia eu estava indo à faculdade levando um vade mecum nos braços. Fazia o caminho habitual quando quase esbarrei em um homem dormindo na calçada. Estava diretamente no chão, profundamente adormecido, ali, em meio ao barulho dos carros, à sujeira e ao ir e vir das pessoas a seu lado. Eu olhei para aquele homem e essa imagem me pareceu irônica, quase sádica: eu, saindo de casa alimentada e vestida, levando a Lei que me assegura que aquele homem tem os mesmos direitos que eu, e ele ali no chão.
Eu passei ao lado desse senhor carregando quilos de páginas impressas com símbolos que ele provavelmente desconhecia, e que garantem que ninguém neste país pode ficar em situação semelhante. Eu iria para a sala de aula, sentar-me em suas cadeiras e ouvir sobre a igualdade, a sociedade, a justiça, e aquele homem continuaria ali, deitado no chão.
Nunca as amarras metafóricas me pareceram tão reais e tão fortes. De repente, a imagem da Justiça cega me pareceu muito mais lógica.

14 comentários:

Carol disse...

Incrível relato. Também sempre fico intrigada com essas pessoas, que mais parecem uma mancha no nosso cotidiano, um monte de cobertor enrolado no chão em situação de total abandono. Sempre me pergunto como aquela pessoa foi parar ali e como, possivelmente, poderia sair.
No entanto, todo esse problema parece muito maior quando se carrega a Lei nos braços. Pobre Lei, tão frágil...

Ste disse...

Temos que tomar o maior cuidado pra gente não acabar vestindo essa venda também, no ramo do direito é meio fácil descobrir que agora estamos tão perto do mundo dos que tem dinheiro e entendem a lei para interpretar a nosso favor :/

Bom parar e refletir sempre, até o nosso dia de virar esse mundo ao contrário usando as próprias armas que a sociedade criou (como diz o Renato Russo "Vamos fazer nosso dever de casa / E aí então vocês vão ver / Suas crianças derrubando reis / Fazer comédia no cinema com as suas leis")

Adorei o texto :)

Edison Junior disse...

Ótima reflexão, Laila, mas enquanto houver gente falando sobre igualdade e justiça, sempre haverá uma esperança. Principalmente se dentre os ouvintes estiver uma pessoal sensível como você. Aproveite sua oportunidade e faça a diferença.

Karina disse...

O mais incrível é saber que alguns desses que estão na rua, estão porque querem. Tem familia, casa e por algum motivo pessoal preferem viver na rua.
Triste.

eros.ramirez disse...

Muito bom o texto. Situação corriqueira nas grandes cidades que fica cada vez mais comum também no interior. O pior é que o incômodo gerado por esse tipo de "encontro" vai esmaecendo e adormecendo até que nos deparamos com outra pessoa dormindo na calçada. Acontece. Somos apenas gente. Não sei se conhece a música "Jornais" do Nenhum de Nós. Ela tem uma temática semelhante a do seu texto. Parabéns pelo blog.

Luís Freitas disse...

Faz tempo que leio e admiro o que escreves, como tal fiquei muito contente com o teu comentário, é um prazer ter-te por la.

manuela barroso disse...

Oi Laila!
Mas há quanto tempo!
Sentei no banquinho algumas vezes...ficava sozinha á espera da tua companhia...e não chegavas!
Mas sabes?
Tenho o teu blog nos favoritos! Por isso não te esqueci.
Não conheço Ávares Azavedo. Mas dá dicas...Sempre gostava de ler o que recomendas!
Obrigada pelas tuas palavras!
E, o homem deitado na rua há muito que virou normalidade. O mundo não se compadece. Por isso a tua sensibilidade! Injustiças!
Bji

BlueShell disse...

Olá...

É a diferença entre a teoria e a realidade!

Compreendo....mas é triste....

Bj

Thiago Quintella de Mattos disse...

às vezes eu me surpreendo com o "conforto" em que eles aparentam estar, ou mesmo estão.

Maryjeco disse...

É interessante sua mente questionadora e que é capaz de meditar nas contradições das leis e da desigualdade entre os cidadãos deste país. Gostei do seu blog. Um abraço

Anderson L. disse...

Gostei muito de sentar no seu banquinho e ler tuas palavras...

Lourdinha Vilela disse...

OI Laila que prazer ter encontrado este seu banquinho e poder ler os teus textos reflexivos e cheios de sensibilidade. Infelizmente a realidade das nossas cidades é esta.
Eu amo escrever. No dia 9 de maio fiz uma postagem (Cidade)relatando a minha impressão de uma forma mais poética sobre esta mesma situação que identifiquei no seu texto.
meu blog é o www.expressodointerior.blogspot.com
se me visitar ficarei super feliz.
Parabéns pelo blog.
Já estou te seguindo. Obrigada.Um
abraço.

Raquel Meel disse...

Lindo Blog lindo relato...
Mas sim a nossa justiça é na maioria das vezes cega , a desigualdade social cresce a cada dia e a verdadeira justiça ainda é para quem pode pagar mais . Triste mas é verdade e assim segue-se o Brasil com parte da sua nação jogada na calçada misturando-se ao lixo muitas vezes .

Horário Extra - Português disse...

Olha...seu lado lírico é bom, mas seu lado anti-lírico é melhor ainda. Ainda assim, o tema é puro, forte e ácido. A montagem final da crítica é apurada.