quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Não era.

Não podia ter sido. Helena relembrava o início. Sempre foram bons amigos, e ela sempre quis fazer parte da vida dele. Quantas indiretas, quantos chamados. Ela toda vestida de vermelho na porta do cinema esperando por ele. Ele não foi.
No início do ano, ele ligou. Quis se redimir do bolo. Foram. Helena passou a tarde pensando: "se ele não tomar uma atitude, vou agarrar ele". E Luis não tomou atitude nenhuma. E ela também não o agarrou. Foi só um selinho.
Meses de vai-não-vai, até que ela resolveu botá-lo na parede:
_Luis, você tem algum sentimento por mim além da amizade?
_Olha, Helena, não posso dizer que não...
_Mas também não pode dizer que sim, né?
_Não é assim... é só que... eu não sei. Eu não gosto dessa cidade, eu vou embora ano que vem, e não queria nada que me prendesse aqui.
Começaram a namorar naquela noite.
Desde o início ela nunca mais foi a mesma. Ela queria conservá-lo a todo custo. Só agora via que não queria conservá-lo: queria tê-lo. Porque embora fosse dela, ela viu que nunca o teve. Era o mesmo aperto no estômago todas as noites. Aliás, todo o tempo. Ele viajava, ele se atrasava, e para ela sempre tudo bem.
Não durou nem dois meses. Ele chegou de viagem diferente, ela percebeu. Luis falou que precisava conversar com ela. E ela já sabia. Marcaram para a tarde. Na hora do almoço ela não quis comer, foi tomar banho. Cortou as pernas ao se depilar, se vestiu toda de roxo e foi.
Ele foi educado. A mesma conversa do início. Helena não sabia nem o que sentir. Não era a dor de perdê-lo, porque ela nunca o teve. Foi mais como uma batalha perdida. Batalha não, guerra. Ele disse que queria que eles continuassem amigos, ela disse que não conseguiria.
Eles se viam todo dia no colégio. Primeiro, ela cumprimentava. Depois passou a baixar os olhos. Um soco no estômago. Era assim que ela sentia quando o via, quando falavam dele. Seu consolo foi que seria um artigo definido na vida dele: A primeira namorada.
Nos momentos de maior orgulho dela, alguém sempre tinha que mencionar o Luis. Ainda que não fosse por mal. Não houve um só dia em que ela acordasse sem pensar "ano que vem ele vai embora e eu nunca mais vou precisar olhar na cara dele".
E agora, lembrando de tudo, ela chegou a uma conclusão: "não podia ter sido amor. Porque eu não quero que ele seja feliz. Foi doença, não sei o que foi. Queria ser a águia pra comer o fígado dele todo dia." E ela pensava nas lágrimas invisíveis, procurando um motivo justo para chorar de verdade.
Não era.
Não era.
Não é.



Meu primeiro conto!!

13 comentários:

Marcus "OROCHI" disse...

Nossa, Laila, muito bom. E quem atire a primeira pedra quem nunca passou por isso na vida (seja como uma Helena ou um Luís).

Em breve tb vai ter conto lá no Coringa. Um conto antigo que to reeditando e fazendo umas ilustrações. ^^

Bjs

Isabela disse...

eu tive um deja vu e fiquei tempoariamente sem comentarios a fazer =/

V.H. de A. Barbosa disse...

haha parabéns! seu primeiro conto parece minha vida.

Começamos a namorar quando eu estava no 3º colegial, faltando 6 meses para eu gloriosamente passar na USP e acabar longe dela. Acabei prestando UEL por recomendação dela, era a faculdade dos sonhos dela. Conclusão: não passei na USP, passei na UEL, só que ela não conseguiu passar. Largamos, briga feia. Guerra todo dia, cada amigo foi obrigado a tomar um lado da batalha. Ela ficou com um dos meus (ex) melhores amigos, eu aprontei toda sorte de bagunça no primeiro ano de faculdade. Cada um se magoando mais e mais e fazendo questão que o outro visse.

Ela prestou UEL novamente, passou, reatamos. Fizemos um (novo) ano de namoro em 10 de novembro.

Isadora disse...

profundo e sincero.

Rafael M disse...

Bom, muito bom. Só não permita que os elogios alimentem seu orgulho, pois, tenho certeza, quem te elogia não tem esse objetivo.

Agora, essa danada de paixão! Será que ela realmente não é? Afinal, esse delírio que nos toma e nos faz querer possuir, me parece ser exatamente este ímpeto de querer mais e mais. Não será isso o amor? Mas, se não for esta paixão avassaladora, o que é ele afinal? quem já sentiu mais que isso? Bem, enquanto eu não sentir mais nada além dessa paixão só me restará dizer que isso é, sim.

Anna Corbo disse...

quem não passou por isso,né?
Que merda!

Marcio Sarge disse...

Primeiro conto, não?
As primeiras coisas da vida marcam rs.

Um conto cotidiano, uma paixão ordinária, mas mesmo assim relevante à vida de qualquer um. Aprendemos tanto com as percas desses amores.

Tenho comigo que você o escreveu com conhecimento de causa.

Beijos

Tyler Bazz disse...

Tenho lá minhas duvidas se alguem que perde outra pessoa - mesmo nunca tendo tido (arrgh) - deseja mesmo que ela seja feliz. Tenho minhas duvidas mas nao fico pensando nisso não, que me cansa :)

Marcus "OROCHI" disse...

Bem... ñ sou lá aquele cara que se pode dizer "nossa, como ele faz templates bons" assim, mas... até posso aceitar uma encomenda sim! ^^'

Isabela disse...

fiquei bolada com a historia do V.H. de A. Barbosa!!!!
uau
e eu to ficando louca ou a dora comentou de novo????

Barbarella disse...

Selinho para você no meu blog..

bjos

Marcelo disse...

De certa forma, a coisa de amar e viver a perspectiva de perder me lembrou de alguns filmes. Entre eles, destaco "Outono em NY" com a Winona Rider. Mas sabe de uma coisa? A realidade da perda é mais intensa do que se imagina e nós perdemos a dimensão disso quando nos entorpecemos de uma ilusão de eternidade.
Ahhh doce ilusão de que as coisas nunca se acabam.
Abs

Marcelo

leilamiguel disse...

esta história é mesmo de profunda dor e intensa emoção.Parabéns por ter conseguido aprofundar-se ao ponto de me fazer chorar! Continuo infinitamente com você.