domingo, 20 de setembro de 2009

Augusto e eu

Quando eu conheci Augusto (e isso tem uns 4 anos), eu, de cara, já não simpatizei com ele. Hipocondríaco, bebia muito, fumava mais ainda e falava o tempo todo de morte, de vermes, desgraças em geral. Lembro-me de dizer a muitas pessoas "que cara negativista, não gosto dele, não" e até de desviar os olhos se por acaso o visse. Juro que se ele não fosse tão velho, eu diria que ele tinha umas tendências a emo.

O tempo passou e eu parei de desviar os olhos e passei a ouvir o que ele tinha a dizer. Do quanto a vida é curta, a dor é grande e os amores são cruéis. E inicialmente eu discordei de tudo. Depois, só bem depois, foi que eu vi que não precisava concordar ou não com ele: era simplesmente uma questão de reconhecer que aquela era a verdade dele e respeitá-la.

Foi aí que eu vi que Augusto mexia comigo mais do que qualquer outro. Depois das palavras dele, eu pensava por muitas horas, e várias vezes chorei. E vi o quanto a verdade dele podia ser tão verdadeira às vezes.

Alguns dizem até gostar de Augusto, mas que ele é boa companhia somente nas horas de tristeza ou desespero. Eu já acho justamente o contrário: só se deve procurá-lo nos dias de sol, quando se está absolutamente bem resolvido com a vida e os amores. Primeiro porque, apesar de compreensivo, ele não é muito consolador e apresenta algumas ideias suicidas. Segundo porque ele sempre oferece bebida e cigarros nessas ocasiões, e eu não aprecio nenhuma das duas coisas.

Então, caro leitor, no seu dia de sol quando for encontrar Augusto, é muito provável que ele diga todas as coisas de sempre. E quando ele disser que a felicidade não existe você vai sorrir, apontando para si e dizendo "existe sim, olhe aqui" e ele vai balançar a cabeça descrente e acender um cigarro. Você vai voltar para sua vida e seus amores muito mais ciente da real existência deles e vai pensar "Augusto, seu tolinho, você não sabe o que está perdendo".
Não, ele não sabe. Mas graças a ele você sabe o que está ganhando.

Augusto.
Dos Anjos.
Poeta naturalista.
Nascido em 1884.


Para quem não teve a honra de conhecê-lo ainda: http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp
http://www.jornaldepoesia.jor.br/augusto03.html

8 comentários:

Rodolfo Diniz disse...

Hummm...não conhecia o Augusto Dos Anjos. Mas é realmente uma bela reflexão, e na vida real, no cotidiano, tem que ser muito sábio para conseguir fazer da "compania de Augusto" algo positivo para si, mas se parar para pensar e refletir realmente não há como não perceber que essa é sim uma dissertação verdadeira.

Edison Junior disse...

Legal!

Isadora disse...

Ainda não tive a honra de conhecê-lo e lendo esse texto passei a querer!

Marcus "OROCHI" disse...

Augusto dos Anjos é um dos meus poetas favoritos desde os tempos do Ensino Médio. Certos poemas dele, como o Morcego, também me fazem divagar por horas.

E, realmente, procurá-lo em dias de depressão não é realmente uma boa idéia! XD

Laila disse...

É verdade, Orochi, principalmente quando se tem uma faca por perto...
hauahuahauahuah

Antônia Burke disse...

Sensacional, Laila. Lindo mesmo. Texto simples e de uma reflexão enorme. Afinal de contas, fazer graça com Augusto dos Anjos é pra poucos, né?

Um beijo e parabéns!

Fábio Melo disse...

O dom de brincar com as palavras;
O dom de cativar o leitor ...

... parabéns pelo texto!

V.H. de A. Barbosa disse...

Odeio poesias. Mas uma das poucas que fiz foi baseada justamente neste Senhor, dos mais respeitáveis e admiráveis.

http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com/2008/03/quando-pensei-em-augusto-dos-anjos.html