domingo, 18 de outubro de 2009

O tal do verbivocovisual

A razão humaniza o homem, mas o que o eterniza é o sentimento. Na vida eu não sei, mas na arte é assim que me parece ser. A matéria de Literatura bimestre passado foi a poesia concreta, e não posso negar que ela realmente é diferente de tudo o que já vi antes. Palavras estranhas, coloridas, de diferentes tamanhos, espalhadas na página, às vezes até a ausência delas. Se faz pensar? Sem dúvida.

Um dia minha mestra falou que a gente pode até não gostar de determinado autor ou poema, mas o que mostra se o tal poeta tem qualidade ou não é o estranhamento que ele causa em nós. O que não pode é passar indiferente. Não posso dizer que a poesia concreta passou despercebida por mim - muito pelo contrário, achei até bem esquisita - mas nada me tira da cabeça que toda aquela rebeldia contra a forma, a cor, as fontes estranhas, não têm outra função senão disfarçar um vazio imenso, gigantesco, colossal de conteúdo e alma.

Os parnasianos foram o contrário: fizeram uma escultura maravilhosa de palavras, digna de um templo grego: a forma perfeita, a métrica exata, a rima, os versos trabalhados num poema oco. O mesmo vazio de conteúdo e alma. Talvez por isso até hoje todo mundo olhe o movimento parnasiano com certa antipatia. Quem geralmente se salva é o Bilac, justamente porque tratou dos sentimentos. Com aquele jeitão, em cima de um pedestal de mármore, não importa. Os sentimentos dele são os mesmos de qualquer plebeu.

A razão nos individualiza: é ela que nos dá a graça de sermos diferentes uns dos outros. Ela nos humaniza e nos torna grandes, significativos e poderosos.
O sentimento aproxima, coletiviza. Ele é igual. E justamente por isso eterniza determinada arte, pois o cidadão vê seu sentimento no poema, do jeitinho que ele sente: só precisava de um ser iluminado - o poeta - para transcrevê-lo.

O apego demasiado à forma - seja à perfeição ou à completa disgressão dela - é disfarce. A métrica é boa, a rima é boa, quando servem para enriquecer o conteúdo do poema, o sentimento do poema. O que não pode é deixar a alma em segundo plano para caber num verso decassílabo ou redondilho.

Até porque coca-cloaca do Décio Pignatari e o crisantempo do Haroldo de Campos são uma beleza, mas nunca vão ter a sustância da terra de um João Cabral de Melo Neto, a doce ironia das ruas de um Mário Quintana ou o pulsar desesperado do coração de um Álvares de Azevedo.


Para quem ficou curioso
http://www.poesiaconcreta.com.br/

7 comentários:

a transviada disse...

"contra a poesia de expressão, subjetiva. por uma poesia de criação, objetiva. concreta, substantiva. a idéia dos inventores, de ezra pound.
o livro de ideogramas como um objeto poético, produto industrial de consumação. feito à máquina. a colaboração das artes visuais, artes gráficas, tipográficas. a série dodecafônica (anton webern) e a música eletrônica (boulez, stockhausen). o cinema. pontos de referência.

a rose is a rose is a rose is a rose
GERTRUDE STEIN"

PIGNATARI, Décio. nova poesia: concreta, 1956.

Não nego o gosto. De forma alguma. No entanto, não se pode justificar "toda aquela rebeldia contra a forma, a cor, as fontes estranhas" dos concretos como "um vazio imenso, gigantesco, colossal de conteúdo e alma". A intenção dos concretos não era a mesma de João Cabral de Melo Neto, muito menos de Álvares de Azevedo. O contexto de discussão era outro. Oposto inclusive a idéia romântica do poeta como "um ser iluminado".

Diogo disse...

O jornalismo perde uma grande mestra... =/

Uma Lya Luft com conteudo
Mas................. c'est la vie

Marina disse...

Pois é, também considero um vazio sem tamanho. É aquela coisa que você olha e diz "eu também sei fazer isso". Augusto de Campos mesmo tem um "poema" chamado "Luxo" que quase me fez rir. Publicado nos Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século.

Trevo sem Folhas disse...

Como você citou a capacidade de causar estranheza, não pude deixar de citar Augusto dos Anjos e seus poemas pré-modernistas recheados de palavras de cunho científico, nunca usadas anteriormente numa obra lírica. Há de citar também os modernistas Oswald de Andrade e Mário de Andrade com Macunaíma e paulicéia desvairada. Obras que pela estranheza e inovação artística cativaram inúmeros leitores.

Laila disse...

É verdade, Gustavo.
Aliás, se você procurar aí embaixo vai encontrar a história do meu "caso" com Augusto dos Anjos.
Já sobre Mário de Andrade tenho que admitir que detesto Macunaíma com todas as forças do meu ser.
Acho que ainda não cheguei ao estágio de evolução de apreciar qualquer obra que me cause estranhamento.
Um dia - quem sabe! - eu chego lá.

Isadora disse...

Arrebentou!!! sem dúvida,um dos seus melhores textos!!!!
"O que não pode é deixar a alma em segundo plano para caber num verso decassílabo ou redondilho." Sintetizou tudo,colega.

Marcus "OROCHI" disse...

A poesia concreta foi uma das forma encontradas de recriar uma realidade caótica da época em que foi criada, logo é natural que cause estranhamento.
Não é bem meu estilo favorito de poesia, mas a aprecio muito neste sentido de inovação e originalidade.